5.8.15


"Voar baixo para não esquecer o chão. Voar alto e selvagemente para soltar as minhas grandes asas. Até agora parece-me que eu não voei grande."

Clarice Lispector, Um sopro de vida

31.7.15

Cifra

São eternamente 4h da manhã desde que comecei a olhar para o relógio ou porque antecipei ou parei algures num compasso de espera... a lua a conversar comigo. 
Um livro de Antonio Tabucchi por ler, arranquei-o de uma prateleira há uma semana atrás, num ímpeto de me perder por novos tempos e lugares. Entretanto, a vida não me deixa concentrar, a cada linha que leio surgem imagens que até poderiam ser escritas mas eventualmente em cifra de outra maneira seriam igualmente complexas e indefinidas para quem lesse. 
As insónias parecem parar o tempo num silêncio pesado que atravessa as paredes da casa. Não me inquieta apenas vou no embalo do que a vida me vai respondendo nestas conversas lunares. 



"Um Diário não é isto. Diário é o daquele inglês que, para que ninguém o lesse, até uma cifra inventou. O que eu diria aqui se soubesse escrever em cifra!" 
Diário, Miguel Torga

2.7.15

os armários da noite - Alice Vieira



o perigo de acumular silêncios em 
corredores vazios ou 
qualquer outro vício que a 
vida nos traz

é que depois as palavras 
morrem à toa 
sem flores  sem cânticos  sem
missa do sétimo dia 

e ninguém sabe para que serviram 
se mataram quem não deviam ou
se ficaram entre 
os intervalos do sono fazendo-nos 
tropeçar nelas como em 
chinelos velhos roupa da véspera 
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de 
as tapar com os lençois brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque
eram de linho e o linho 
dava muito trabalho a engomar
 
mais rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem 
os pesadelos das manhãs de domingo e 
ninguém se lembra de lhes arranjar 
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos 
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba 
ninguém lhes coloca a pedra 
com dia de nascimento e morte 
ninguém procura herdeiros  ou calcinados despojos

- cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém

Os Armários da Noite, Alice Vieira 

6.6.15

Noite...

Quase dia e nem uma ponta de sono a assombrar as paredes frias da casa. E quando for dia, um cansaço quase rochedo irá apoderar-se do corpo e deixá-lo pesado a arrastar insónias dia após dia. A noite nunca me foi pacífica, há sempre uma inquietação que se esgueira para lá dos céus, para lá do medo, e de todas as coisas que não se compreende. Pudesse caracterizar e diria é estar vigil enquanto o mundo dorme. Como diz Deleuze, um animal é um ser que está permanentemente à espreita. Nesse sentido é dar vida ao animal interior. Inquieto e atento. A absorver todos os silêncios e tonalidades de todas as sombras, as que encantam e as que se perdem.

16.5.15

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro."

Clarice Lispector

4.1.15

Tempestades

Acordar trôpega embriagada por tempestades que assaltam horizontes. Não sentir firmeza em nada que se toque. Fugir do que resta. Abrigar sonhos e ferramentas num lugar desconhecido onde nada me comprometa e me prometa vida eterna de paz e felicidade. Fechar tudo isto num olhar triste e esconder o sorriso ingénuo que perdura mesmo que não haja fio condutor que me ligue a nada do que resiste e persiste dentro de mim. Dizer, sim, tens razão, mesmo sabendo que tudo é tão mais profundo do que as palavras sabem dizer. Ser eterna na forma de dar e sentir, no que me faz brilhar e libertar asas e gritar em esplendor. Ser tola enfim em flor de orvalho, cristalina visão quase inferno que me tatuaram na pele.

3.1.15

Luares


"direccionar a flecha primeiro para o próprio coração - defendem os mestres - para depois, sim, a poder projectar de modo certeiro, infalível, na direcção do alvo."

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas

24.12.14

Meia-noite

meia-noite. Candeias acesas no escuro da noite, ramos de alfazema no papel por escrever. Formas aladas em rodopio, asas de anjo e estrelas de papel. Poeira, poeira de sonhos nos dedos, vou de candeia acesa pelos labirintos da noite. Bom Natal!

17.12.14

Outros corpos

...

há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos, animais sem nome que deixas à solta fora do teu corpo, em precária liberdade.

Al Berto