2.7.15

os armários da noite - Alice Vieira



o perigo de acumular silêncios em 
corredores vazios ou 
qualquer outro vício que a 
vida nos traz

é que depois as palavras 
morrem à toa 
sem flores  sem cânticos  sem
missa do sétimo dia 

e ninguém sabe para que serviram 
se mataram quem não deviam ou
se ficaram entre 
os intervalos do sono fazendo-nos 
tropeçar nelas como em 
chinelos velhos roupa da véspera 
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de 
as tapar com os lençois brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque
eram de linho e o linho 
dava muito trabalho a engomar
 
mais rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem 
os pesadelos das manhãs de domingo e 
ninguém se lembra de lhes arranjar 
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos 
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba 
ninguém lhes coloca a pedra 
com dia de nascimento e morte 
ninguém procura herdeiros  ou calcinados despojos

- cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém

Os Armários da Noite, Alice Vieira 

6.6.15

Noite...

Quase dia e nem uma ponta de sono a assombrar as paredes frias da casa. E quando for dia, um cansaço quase rochedo irá apoderar-se do corpo e deixá-lo pesado a arrastar insónias dia após dia. A noite nunca me foi pacífica, há sempre uma inquietação que se esgueira para lá dos céus, para lá do medo, e de todas as coisas que não se compreende. Pudesse caracterizar e diria é estar vigil enquanto o mundo dorme. Como diz Deleuze, um animal é um ser que está permanentemente à espreita. Nesse sentido é dar vida ao animal interior. Inquieto e atento. A absorver todos os silêncios e tonalidades de todas as sombras, as que encantam e as que se perdem.

16.5.15

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro."

Clarice Lispector