4.1.15

Tempestades

Acordar trôpega embriagada por tempestades que assaltam horizontes. Não sentir firmeza em nada que se toque. Fugir do que resta. Abrigar sonhos e ferramentas num lugar desconhecido onde nada me comprometa e me prometa vida eterna de paz e felicidade. Fechar tudo isto num olhar triste e esconder o sorriso ingénuo que perdura mesmo que não haja fio condutor que me ligue a nada do que resiste e persiste dentro de mim. Dizer, sim, tens razão, mesmo sabendo que tudo é tão mais profundo do que as palavras sabem dizer. Ser eterna na forma de dar e sentir, no que me faz brilhar e libertar asas e gritar em esplendor. Ser tola enfim em flor de orvalho, cristalina visão quase inferno que me tatuaram na pele.

3.1.15

Luares


"direccionar a flecha primeiro para o próprio coração - defendem os mestres - para depois, sim, a poder projectar de modo certeiro, infalível, na direcção do alvo."

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas

24.12.14

Meia-noite

meia-noite. Candeias acesas no escuro da noite, ramos de alfazema no papel por escrever. Formas aladas em rodopio, asas de anjo e estrelas de papel. Poeira, poeira de sonhos nos dedos, vou de candeia acesa pelos labirintos da noite. Bom Natal!

17.12.14

Outros corpos

...

há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos, animais sem nome que deixas à solta fora do teu corpo, em precária liberdade.

Al Berto

21.10.14

"Não somos mais do que uma linha abstracta, como uma flecha que atravessa o vazio."

Gilles Deleuze e Félix Guattari,
Mil Platôs, Capitalismo e Esquizofrenia