24.7.14

O Banquete de Patrícia Portela

Regresso agora à sua língua.
Ainda produz saliva.
Se ainda pudesse falar...
Se as palavras fossem uma substância física,
como as células,
como as componentes de um corpo, e eu pudesse separar cada letra e reconstruir, através dos vestígios,
as suas últimas palavras.
Poderiam elas explicar?
Poderiam dizer-me por que é que ela não morre?
Se as palavras fossem o resultado físico do que pensamos e se fosse possível arquivá-las na língua, ordenadas, prontas a serem faladas,
poderíamos perceber qual o padrão de todas as palavras verbalizadas durante uma vida, como se fossem anéis de tempo de um tronco de uma árvore?
Poderíamos ver quão antiga era cada palavra?
Quantas vezes tinha sido usada?
Quais foram ditas uma única vez?
Quantas nunca foram proferidas tendo tido o prazer de serem longamente pensadas?

O que terá ela pensado mesmo antes de morrer e que, mesmo ficando por dizer, ainda assim se deixou registar?

Patrícia Portela

3.7.14

20.6.14

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Todas as manhãs a mesma sede de respirar o ar da manhã... hoje leve, calmo, doce no peito que arde tempestades. O sol desafia e faz promessas que tocam a pele em silêncio. Dava tudo para hoje ser um dia diferente ou ser-me diferente nas coisas iguais. Tudo existe perfeito ou não, na combustão do peito. É a arte de viver, e a minha sabedoria vive a léguas dessa paz interior. Fico-me pela janela, pelo perfume da manhã, pelo céu de ontem à tarde, pela música que me mantém viva e iludida que serei um dia borboleta em metamorfose.