4.5.14

Trespasser William - My hands up

entardecer

entardecer vezes sem conta, estender os braços no parapeito da janela. Perder-se no ar denso, quente e quase possível de tocar... A árvore da rua e o silêncio. A palavra azul pelos muros das redondezas. Não pensar. Fechar a janela. Trocar tudo por um filme que passe à hora certa. Um cinzeiro vazio sem importância. A música prolonga-se pelas paredes, regresso depois do intervalo sem filme...

3.5.14

no obscuro desejo

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

Vasco Graça Moura, "Poemas com Pessoas" (1997)

18.4.14

purple rain


Hoje descia a rua das flores violeta, cada passada e a incerteza dos dias. O silêncio e todas as árvores a pactuarem com esta angustia que chora como chuva dentro do peito. Sempre que este perfume primaveril aflora a pele há um misto de conforto e nostalgia. E esta primavera revela-se como um espelho talvez cruel talvez verdadeiro da minha alma perdida...