3.5.14

no obscuro desejo

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

Vasco Graça Moura, "Poemas com Pessoas" (1997)

18.4.14

purple rain


Hoje descia a rua das flores violeta, cada passada e a incerteza dos dias. O silêncio e todas as árvores a pactuarem com esta angustia que chora como chuva dentro do peito. Sempre que este perfume primaveril aflora a pele há um misto de conforto e nostalgia. E esta primavera revela-se como um espelho talvez cruel talvez verdadeiro da minha alma perdida...

26.3.14

choradinho medíocre


Uma qualquer estrela e um ponto de luz tocaram nas palavras que andam adormecidas. São tantas as saudades de ser este o meu porto de abrigo... era uma sensação desmesurada de alegria e encanto, algo semelhante a um desabafo ou alívio de quando as coisas nos pesam e um brilho simples nos mostra outras cores e outros sons, assim era, quase um mundo de fantasia que perdurava diante dos meus olhos, uma paisagem para dentro do coração... do meu, e do coração de todos aqueles que por aqui passam. Isto não é uma despedida, é apenas um choradinho medíocre, por que as palavras já não sendo minhas aliadas, são pura miragem de um horizonte que brilhou...
ah, tenho pensado sobre tantas coisas, falado comigo de outras tantas, e rezado em tom de texto, narrativas, a maior parte das vezes monólogos que se chamam “angustia”, e na verdade sei que me perco e me perdi, sei ainda que há um fio condutor e tenho a certeza que nada é por acaso, e o meu fado não será tão diferente de outras pautas musicais. Tantas vezes não sei do que falo e provavelmente esta não será muito diferente. Falo da escrita mas também da vida e vezes sem conta ocorre-me pedir perdão a deus e faço-o, por não saber sorrir quando perco o rumo do sol, por não saber falar no vento certo, por olhar o céu à procura de corpos celestes e divindades que só em sonhos me falaram um dia. Ah... grito, grito em silêncio, se me curvo olho o coração, se me levanto olho o céu espelho da minha alma, sempre na esperança de uma dança chamada liberdade sem dúvida nos passos e nos tempos. Sei que amanhã acordo e terei tanta vergonha do que aqui escrevi hoje, mas a noite e a média luz têm destas coisas... Perdoem-me o silêncio nos vossos blogues, continuo a saciar a minha sede em vossas palavras, ainda que de outra forma.