2.7.15

os armários da noite - Alice Vieira



o perigo de acumular silêncios em 
corredores vazios ou 
qualquer outro vício que a 
vida nos traz

é que depois as palavras 
morrem à toa 
sem flores  sem cânticos  sem
missa do sétimo dia 

e ninguém sabe para que serviram 
se mataram quem não deviam ou
se ficaram entre 
os intervalos do sono fazendo-nos 
tropeçar nelas como em 
chinelos velhos roupa da véspera 
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de 
as tapar com os lençois brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque
eram de linho e o linho 
dava muito trabalho a engomar
 
mais rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem 
os pesadelos das manhãs de domingo e 
ninguém se lembra de lhes arranjar 
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos 
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba 
ninguém lhes coloca a pedra 
com dia de nascimento e morte 
ninguém procura herdeiros  ou calcinados despojos

- cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém

Os Armários da Noite, Alice Vieira 

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