24.7.14

O Banquete de Patrícia Portela

Regresso agora à sua língua.
Ainda produz saliva.
Se ainda pudesse falar...
Se as palavras fossem uma substância física,
como as células,
como as componentes de um corpo, e eu pudesse separar cada letra e reconstruir, através dos vestígios,
as suas últimas palavras.
Poderiam elas explicar?
Poderiam dizer-me por que é que ela não morre?
Se as palavras fossem o resultado físico do que pensamos e se fosse possível arquivá-las na língua, ordenadas, prontas a serem faladas,
poderíamos perceber qual o padrão de todas as palavras verbalizadas durante uma vida, como se fossem anéis de tempo de um tronco de uma árvore?
Poderíamos ver quão antiga era cada palavra?
Quantas vezes tinha sido usada?
Quais foram ditas uma única vez?
Quantas nunca foram proferidas tendo tido o prazer de serem longamente pensadas?

O que terá ela pensado mesmo antes de morrer e que, mesmo ficando por dizer, ainda assim se deixou registar?

Patrícia Portela

3.7.14