22.2.14

Nuvens...

Nuvens... Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens... São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos do meu destino.
...
Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, alegrando brancas ou escureando negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens...

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

9.2.14

frio


Não me perguntem... hoje escrevi os mesmos desabafos de sempre, as mesmas linhas tortas, as letras desiguais e tudo a rebentar de esperança, fúria, desalento, um fogo na mão que o peito não aguenta... quase oração a um deus maior, assim como todas as manhãs ainda de céu escuro, diante das estrelas me rendo e me curvo por um caminho e uma luz que me salve.
Trago no peito este outono que sonha primaveras... frescura, perfume, pétalas na saia que rodo e enrolo entre os dedos como embaraços de vida.
E tudo isto me dói e com isto, as árvores nuas e o frio... o frio.