17.11.13

The Cranberries - Linger

a riscar por aqui ...

chávena de chá

um sopro fresco e doce de uma janela de sol
entro com esperança de não morrer de novo
(não disfarces) 
entro - ainda não oiço o coração

o horizonte anoitecido é sempre esperança
fecho os olhos doridos de tanto ver
e escondo-me numa chávena de chá
à beira de um dia de sol

14.11.13

Al Berto - a paisagem prolonga-se


a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas
 
ela entra nas ruínas

junto ao ângulo penumbroso da casa destruída

está vestida de branco quando ele lhe fala

ambos têm o olhar vago
ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas

ele está de pé encostado a um muro de pedra

ouve-se alguém dizer: não tenhas medo

somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem
os lábios dela tremem ou sorriem

ele encolhe-se mais contra a parede

o silêncio ainda não os abandonou
ela espreita-o

ele desenha-se exacto no centro do écran
      (de novo uma voz off)

um vento vertical adere à casa

onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces

e quando ela se vira para o interior das ruínas

prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente
ele já ali não está


apenas a objectiva da câmara continua a segui-la


Al Berto

8.11.13

.

São papéis que rasgo com o que quero dizer, a noite arde lá fora, as horas seguem-se e é como se eu não fizesse parte de nada, tudo existe sem mim. Os candeeiros continuam a iluminar a rua. A lua permanece, as estrelas e o fresco da janela. O homem de barba que olha o horizonte todos os dias à mesma hora. Os carros que passam invariavelmente ao mesmo ritmo. E tudo acontece, menos eu. Rasgo papéis do que digo e cada vez menos digo. E cada vez mais me oiço e cada vez mais rasgo por dentro aquilo que não digo. Um dia e outro dia ainda...e tudo continua a existir.