27.10.13

Ryuichi Sakamoto : Amore

anoitecer...

não consigo adormecer, teimo em deixar a janela aberta e sonhar demais. São as tais horas de nem saber a quantas ando. Remexo nas mãos que hoje toquei, nas frases que me iluminaram e me anoiteceram, e deixo o corpo embriagado do dia que não termina. Sonho-me serena como um campo de madressilvas ao vento. Doces perfumes me assaltam numa noite inquieta... escrevo e nem isso me sossega. Tragam bandeiras, archotes e sirenes e alguém que me acorde desta inquietação que se deitou a meu lado, infiltrando-se nos poros de uma noite sem fim...

19.10.13

Arte Poética - José Luís Peixoto

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia
a letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha
do quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é
a raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é
a carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrófes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras,
escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido. 

José Luís Peixoto 
A criança em ruínas

10.10.13

madrugada

A madrugada trazia palavras minhas...a madrugada chegava antes de eu mesma acordar e ainda em sonhos segredava um campo de estrelas por desvendar. Podia ainda ser como o mar que vai e vem, e em cada onda de sal, as lágrimas-poema ao de leve no areal. Podia ser um sorriso sem retorno. Uma luz sem candeia. Uma sombra sem luar. Era tudo e nada. Era nada e tudo. Era apenas eu. Eu e o tempo. Eu e o mistério. Eu e as danças de infância. Eu solitária a rebentar gestos de vida. Sempre eu a cada desventura. 
Eu como em cada vela que se acende, se desvenda mil e uma sombras do que somos e queremos ser...