26.9.13

Tom Waits - Time

Clarice Lispector


Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Irisada e intraquila. O beijo no rosto morto.
Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.
De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é.


A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma.


Clarice Lispector
Um sopro de vida 

19.9.13

Sarah Mclachlan - Dirty Little Secret/Thievery Corporation Mix ᴴᴰ

banco de jardim


O vento passa por mim e não me derruba mas tão pouco me serena ou liberta. Há um banco de jardim, fora do jardim, fico adormecendo tempestades e acordando as mesmas, como num círculo sem fim, nem piedade. As árvores agitadas dançam imitando esgares do meu corpo interior. Há o coração e esse maldito compasso, o corpo não se habitua e verga-se à escuta...
Não há nada como ler as árvores...seguras, resistentes, desvendando fragilidades nas finas folhas, dóceis e irresistíveis.

16.9.13

Al Berto - os dias sem ninguém

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar


Al Berto. O Medo

7.9.13

veludo

Respira e leve docemente...
desse olhar profundo quase horizonte
guarda silêncios
que se deleitam
imagens voláteis,
densas como azul veludo.