27.4.13

ondas de papel

Calou a dor numa paisagem sossegada e na margem do dia uma onda salgada a despertou de um pensamento submerso. Sendo tarde as coisas falavam-lhe de maneira diferente. Os barcos remavam no sentido oposto. As ondas iam contra a corrente do seu corpo. As gaivotas grasnavam tempestades e as águas desenhavam letras que a areia escrevia. O vento balançava mais do que devia, mais do que ondas, mais que promessas de sol. 
Poderia um farol ao longe numa miragem de neblina levar o olhar até onde o coração alcança...

18.4.13

devaneio

acordei e respirei um ar denso de humidade, quase poderia ouvir um riacho cair entre as rochas verdes de lodo e as flores cheias de orvalho. Usaria um vestido palaciano para desfolhar esse jardim...

14.4.13

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A Fonte das Palavras é a exposição de Maria João Worm que decorre na Casa das Histórias Paula Rego.  Em duas salas, apresenta dois momentos distintos de expressividade, ambas assentes na relação da escrita com a palavra.
O conjunto de poemas que dão voz e ambiente, articulando texto e imagem são referentes a poetas “(des)conhecidos”. No limiar da leitura e progressão do olhar, Contemplação, o poema que dá vida ao momento de exterioridade, e Entre os Braços das Senhorinhas, o poema que elege a introspecção, como silêncio e espelho de inquietação.
Na segunda sala, a presença de diálogos sensíveis com um espelho que sobre o ombro colocamos, comunicando com traços escavados em placas de linóleo. Gravuras que tomam forma ou não, no nosso mundo imaginário.   
A Fonte das Palavras,  resulta para mim, nesta procura incessante que une a palavra e a imagem. A envolvência de vitrais com traços ramos de árvores, entrando nessa luz que nos leva à escrita. As caixas fechadas com matéria e texturas por descobrir, em estreita ligação com os poemas infantis que criámos. E a sombra para lá do espelho, a subtil imagem do que sentimos.
Maria João refere-se a este seu trabalho como, “o equilíbrio entre o avesso e o direito” nesta estreita relação com a palavra.

8.4.13

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Logo que acordo assombro à janela e respiro inteiramente o ar que paira como uma névoa, hoje pesada mas perfumada de um doce terra-húmida. Só me apeteceria ficar de cotovelos plantados na janela ao som de uma manhã cantada por pássaros tímidos. Baixo o olhar de encontro ao peito a vasculhar poesia negra que me possa salvar mas nada sussurra ou grita. Serão a cor dos dias que se seguem, morrendo de desamparo num rio sem nome. Não sei inventar páginas brancas e não minto no desassossego das minhas palavras para ti...