28.2.13

do frio e os seus refugios

 Faz tempo que não escrevo com mão firme e convicção, mas não vale a pena estes lamentos repetidos sobre a escrita a fugir entre os dedos, e sobretudo agora a tiritar de frio por todos os poros. A cada raio de sol é nesse calor que me iludo para depois a cada sombra cair por terra e arrepiar cada milímetro de pele. 
 Há coisas que se transformam em refúgios, abstractos, seguros, indefinidos mas tão próximos e quase reais no invisível. Outros refúgios encontramos momentaneamente, uma fugaz sensação que nos fica como paisagens esperando por nós e por um sorriso. Como os morangos que hoje coraram-me os olhos, soberbos e vermelhos. E aquela rua tomou a cor de sol e morangos, num pequeno fragmento colorido que me libertou do frio.
Aqueço as mãos na chávena quente e recordo o dia, e espero a noite tranquila a dormir sobre o peito.

19.2.13

letras cinzentas

pequenas folhas caídas na rua cinzenta, tão breve e sossegado momento... olhar timidamente o céu e pensar no tempo, sussurrar-lhe perguntas menos sonantes que o próprio vento... e por fim descobrir rios que nascem ao dobrar de uma esquina da vida, e perder o fio à meada, sentir as mãos perdidas uma na outra e nem o corpo segura, nem a voz se cala, nem deixa de morrer de perguntas.

12.2.13

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deixa a porta aberta...e talvez esta neblina se torne apenas poesia. leva o frio e todas as linhas que o tempo escreveu. deixa-me falar como fala o vento, a sete ventos e num sopro quase tempestade hoje que os meus olhos são luzes que se apagam com um leve estremecer. mergulho no rio dos pensamentos que se alojam no peito numa voz desmaiada que naufraga como barco que perde o rumo e vela ancorada pede por praia e amanhecer de mar calmo. soube tropeçar neste dia e noutros, e fiz das paisagens braços que abraçam e horizontes indecifráveis...alguém sabe a linguagem das nuvens?

5.2.13

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fotografia de Brooke Shaden 

 Quando saíra de manhã estava sol, mas o dia fora escurecendo (primeiro as sombras vermelhas do bosque, a penumbra das escadas, dos túneis cavados na rocha), as nuvens cinzentas amontoavam-se ao longe, por trás do vulto grave da casa, dos arcos de pedra. Devia ser fevereiro, as mimosas e as camélias estavam em flor, as magnólias abertas desprendiam um perfume sufocante, os trevos vermelhos espalhavam-se pelo relvado.

... atravessara o descampado, sentindo as flores e as ervas humedecerem-lhe as pernas, e embrenhara-se no bosque.

Ana Teresa Pereira