25.1.13

frio

os relógios já se riem das insónias que nascem à hora marcada dos pensamentos. Não é tão doce assim imaginar flores de inverno e mantos brancos a adormecer pesados a cada lágrima de céu. Sentir o corpo pequeno colado ao frio que o vento segredou em cada poro de pele. Levar as mãos aos bolsos vazios e sentir o mesmo vento correndo os labirintos dos gestos.
o piano toca baixinho, não sei se chove lá fora, hoje os candeeiros nada me dizem e tudo é frio. quero fechar os olhos e adormecer mas antes ainda sentir uma ponta de sorriso crescer nos lábios, fosse o céu estrelado e a lua alta... tenho o corpo enrodilhado em pensamentos, fiz disso todo o meu dia.

21.1.13

os troncos das árvores

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.

Sophia de Mello Breyner Andresen

12.1.13

meteorologia

para dizer que parece nascer com o dia cores promessa de sol, ainda uma tímida estrela ao fundo no céu, rasgando o olhar até ao parapeito da janela. Respiro o frio da rua e rezo pelas árvores nuas. Entretanto há quem varra a rua e gostava de imaginar um jardineiro, libertando flores das ervas daninhas, recuando pedras e regando raízes. E a rua teria outro perfume. Mais do que vento é apenas brisa que levo para o interior da casa, com desejo de dar descanso ao corpo. Rodear-me de almofadas e cobertores de lã coloridos, chávenas de chá e lareira acesa. Apenas desejo preso a uma nuvem de impossibilidades.

10.1.13

carminho

entardecer hoje em lisboa

fotografias de Andy

.

se me acordares ainda de noite, apaga os relógios do tempo e faz-me acreditar num tempo só. deixa o piano tocar enquanto a lua arde como sombras nas paredes brancas. 
leva-me a sonhar esse cintilante momento, quebrar dias e noites, e apenas ser... 
de mãos dadas anoitecer de cansaço, sem perder a sombra dos teus olhos. 

deixa-me acreditar ou então deixa-me simplesmente ser...

7.1.13

brinco de pérola

um brinco de pérola enchia o espelho,
olhos fundos e mortiços de noites-lua-cheia.
sorriso longe, apagado há vários dias.
traços contidos, lívidos.
vestido leve, cor-de-pele, agarrado ao corpo cansado.
felizmente um brinco de pérola enchia o espelho...

2.1.13

paisagens de silêncio

excerto do livro "o lago"

O vale do outro lado era belíssimo. Estava inteiramente cercado pelas montanhas, e o outono ali parecia mais avançado, as folhas das árvores já não eram amarelas, ganhavam um vermelho-escuro. A estrada terminava perto do lago. Mas antes de lá chegar, havia um caminho entre as árvores que levava até uma casa.
Tom perguntou a si mesmo quem poderia viver num lugar tão isolado. Não vira outras casas, não vira ninguém. O lugar era tão bonito que por momentos desejou ver alguém a andar na berma do caminho, um camponês com uma pá ao ombro, uma mulher com um cesto de vime.
Depois rendeu-se ao silêncio e ao isolamento. Sabiam bem.

O Lago
Ana Teresa Pereira