24.10.12

flor de lotus

de tarde num céu cinzento
morre-me o olhar no horizonte
parede fria e distante
não há pássaro que voe
ou árvore que se enleve
lavro o chão de medos
flor de lotus que plantei
e caminho...

20.10.12

noite

Ficar e ver a noite cair. Esperar sem ouvir o vento e as estrelas adormecidas nas nuvens.
Apenas ficar, e amanhã debruar janelas de encanto.

19.10.12

passeio à chuva

já não faz sentido olhar de soslaio com pestanas cor-de-rosa e pupilas da forma dos sonhos, não faz sentido. Finalmente ainda que quebrando, viram-se páginas e ficamos apenas a decifrar códigos que moram no vento. A escutar os gestos que falaram por escritos e os pensamentos que soltaram plumas como numa brincadeira de criança, inocentes pensamentos... 
Sentar de frente para o corpo e escutá-lo, lamber as feridas que não saram, e nem num olhar vertical perceber onde perdeu-se a certeza das coisas. Rasgar as folhas que ficaram por escrever e delas apenas um sopro no ar, como um tiro de espingarda carregada de flores murchas. 
Um passeio a sós debaixo de chuva, e o tanto que pode lavar ao dobrar da esquina, onde a vida me espera.

6.10.12

anoitece... a melancolia abraça as paredes da casa até à rua.
Lá fora o ar está impregnado de vozes, as vozes de todos, a insegurança e revolta a passos largos para o indefinido... 
A lua trepou o céu de silêncio e agora nem as folhagens se ouvem, apenas a noite no seu denso escurecer. Espero o sono a invadir as pálpebras sempre alerta. 
Espero pétalas em sonhos profundos.

5.10.12

outono a 30 graus


fui todo o caminho de olhos no chão não fosse tropeçar e completar as dores que sinto. O sol estava imenso, de um calor sem fim, mas o frio também seria terrível. Lá fui com andar trôpego a me sentir mais pequena que nunca. Daqueles momentos em que não vale a pena pensar, nem sentir, apenas chegar ao destino. 
As salas de espera transbordam sempre de uma calma inquieta, há um sussurro constante, como segredos praticamente audíveis, todos aparentam calma mas certamente um grito aliviaria a tensão de qualquer um ou pelo menos a minha.
Há uma vantagem em estar sozinha, não estou a sussurrar para os ouvidos de alguém e de todos. E não me procurem o olhar ou um sorriso, estou de papel e caneta na mão.

2.10.12

fotografia de Aimee Ketsdever

trocaria os cadernos vazios pelos livros que ainda não li...

1.10.12

dias de outono

o outono chegou demasiado rápido e julgava-me preparada para tal mas enganei-me. E se agradeço as estações e este relógio da natureza que me faz a cada compasso deslumbrar-me com as diferentes cores do horizonte, das árvores e de tudo o que nos fica para além do olhar. Mas desta vez nem o corpo se adapta, nem nada me acorda desta falta de graça... os dias passam e há uma pequena dormência do que sinto e vejo, como uma cortina que amortece as emoções. Nem pintura abstracta ou versos nada me sustenta ou quebra este silêncio.