31.8.12

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fotografia de Andy 

que fazer desta falta de palavras que se estende líquida como um lago sem nome?
mergulho o olhar nas ondas de calor, enrolo o cabelo entre os dedos
e nem a presença sozinha de uma lufada de ar me abandona por um minuto...
respiro o sossego e todas as coisas aconchegantes que me cercam.
eu sou o silêncio das palavras e serpenteio-me nesses rodeios de luz e sombra.

17.8.12

a rua fica por vezes às escuras, prefiro nem ir à janela nesses dias porque sinto falta dos candeeiros acesos, assim parece-me a rua de ninguém...
uma pequena chuva de verão, nestes dias que passaram, leve e perfumada de um intenso cheiro a terra molhada enchia-me os sentidos de outono. As árvores pareciam mais viçosas e o tapete húmido que se estendia na rua era da cor da solidão, das ruas mais vazias e de vozes recolhidas...

13.8.12

sombras

não deveriam existir espelhos
como aqueles que reflectem as sombras do cansaço
porque mais do que senti-las esventrarem-me o corpo
dispensava vê-las quebrarem-me o olhar
e todas as expressões possíveis de sorrir.

12.8.12

a espera

o cesto de flores ao fundo do corredor, na penumbra só definida a forma e as cores quentes de veludo. E fico ali... mesmo apressada continuava com a imagem perfumada que tornava mais leve o tempo. Olhei-a, sentada de mãos inquietas sobre o colo, cabelos brancos mais brilhantes de corte definido pelo rosto, olhos esquivos com um sorriso pelo meio, de voz trémula dizia estar à espera de alguém. Esperou. Esperou por ele até não ter mais sorriso entre as palavras. Até os olhos perderem-se no calor e no desalento das horas. Até as rugas parecerem mais fundas que noutros dias, e um branco ténue à volta dos lábios abafar uma pequena dor. Esperei com ela...
E mais uma vez as flores de veludo ao fundo do corredor.

10.8.12

a cidade...desenhei-a longe de mim, fechei-me nas paredes alvas que nem sempre encontro.
Sentei-me diante dos morangos e de pés descalços, a sentir o fresco do chão e na boca a emparelhar morangos que se sentiram pequenos diante dos pensamentos. Arrumei vozes, decifrei códigos, recordei, senti e arrumei outra vez. Podia acender uma vela mas não faz sentido porque é dia, e só queria as paredes alvas para me ouvir em silêncio. Há sempre um refúgio, eu e as palavras. E não haverá solidão mais necessária... Prometo, não terei medo de escrever mesmo nos muros que me cercam mesmo que graffitis quase palavras em silêncio.