13.6.12

caderno

agora uso um caderno de argolas, pequeno, simples de folha branca e sem capa que amorteça as quedas de um bolso esquecido. Tenho-o guardado à espera que as palavras sejam mais fortes que o tímido caderno vazio. Acontece escrever... mas depressa viro a página, e tudo se apaga, tudo o que pensei fazer sentido aos meus olhos. Resta-me saber se leio depois, com outros olhos que não os meus, outra pele, vestida de limbos e incertezas. Quem me dera soltar aos sete ventos. Mas não é o tempo, não é o dia. Dentro de casa, cabe o sossego, e se fosse vento, seria brisa e letras pequenas a fecharem-se num pequeno papel, que um dia o sonho desembrulhou.

7.6.12

azul

repara como a manhã acordou suave por entre as árvores que se agitam levemente. A janela tremeu com o sol tímido, e os cotovelos não pousaram de desânimo. Cheira a terra molhada. Num arrepio de vento como perfume que percorre cada poro de pele adormecida. É este o pano azul em que arregaço os braços nus. Não preciso de mais, é esta a água que me acorda.

6.6.12

espelho

se soubesse rasgar cada pedaço de espelho
desses entristecidos traços que
aos meus olhos afligem lágrimas
contava até três
e no meio dos lábios sentia o calor de um sorriso

se soubesse rasgar cada pedaço de espelho
em cada detalhe de corpo ferido
seriam pétalas num rio calmo
a mostrarem-me caminhos...