27.5.12

mar de silencio

fotografia de Andy 

queria uma janela voltada para o mar e ler o pôr-do-sol nas entrelinhas, já que há sempre um ir para voltar se nos apetecer...deixar a alma acariciar uma parte do fim, e saber se ainda a tempo poderei voltar...
queria perceber se me falta tinta ou sangue de que são feitas as letras que nascem de uma canção com vista para o mar. Já não pego na caneta, o movimento desfaz-se antes da sua sombra. Não me sento para escrever, deixo o corpo escorregar no cansaço e as letras fundem-se antes mesmo de as decifrar.
Já não tenho lamparina e o caminho parece-me outro... Quantas vezes gritei silêncios em parágrafos, e estes em mim...eu era isso e isso em mim. Poderia ser pele, roupa que aconchega e desabafa...
Não sei se há sempre um voltar. Sei que hoje imaginei o mar de outros dias...deixei uma lamparina acesa para o caso...

19.5.12

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fotografia de Andy 

erva espezinhada poeira de sal nas unhas
dedos cansados de escutar o envelhecido latejar das pedras
olhar vago rasando o mar...azulino pássaro
no vagar do vento vem abrigar-se no meu peito
...
Al Berto

18.5.12

insónia III

fotografia de Andy 

as noites de papel correm pelos campos amanhecidos de flores brancas
dizem que nem o céu nem o mar sabem o horizonte onde moram
sabe-se que as pétalas desfolhadas ardem de perfume na mão fechada

14.5.12

vígil

para dizer que a esta hora
já tudo é silêncio
e vagueio pela casa de lira no pensamento

para contar que todas as janelas
me têm trazido nuvens
como sombras que parecem asas

não adormeço...

confesso que tenho pintado vozes
as últimas tintas secaram

não sei adormecer...

8.5.12

laços

pelo desenho das nuvens 
esperam-se ventos na flor das emoções, 
abrem-se fendas como rios 
que levam mais do que trazem, 
pressentem-se tesouros
que não saberemos tocar, 
e da rosa colhem-se espinhos 
sem dor nem piedade...

6.5.12

escadas de música

guardei os casacos, fechei as janelas e deixei a porta entreaberta para continuar a ouvir o piano que tocava. Passado todo este tempo que aqui moro, ainda imagino quem será o contador de melodias, o viajante de sonhos ou as mãos escondidas de quem toca. Sem hora certa ou dias marcados, de longe em longe há este piano-mistério entre as escadas. Fecho a porta, abro as janelas e as últimas cores do dia esbatem-se nos meus olhos cansados. Acalmo os passos ao compasso do corpo. Faço, desfaço, acrescento, dou, recebo, é esta a dança das mãos mergulhadas em silêncio, com tanto por contar do dia que trago. Disseram-me que a lua nessa noite pareceria maior que noutros dias comuns. Não estive ao alcance de tamanho poema.