11.4.12

retalhos

algumas noites ainda me sonho naquela casa. Com aqueles metros de quintal até à porta de entrada, guarnecidos por manhãs de páscoa, uma flor de pétalas vermelhas. O chão empedrado, com algumas pedras soltas a confessar os seus anos de existência. E as escadas que mesmo em dias de sol, guardava uma doce sombra antes do terraço solarengo, onde avistava o mar e a rua que subia para os lados do Monte. A cozinha de chão vermelho e lareira com cortina de tecido leve mas garrido. A mesa onde desenhava. Os cadernos. O rádio do meu pai. Os sábados. O cheiro do chão encerado. O disco de vinil a tocar e os passos falsos de bailarina encenando o sonho de criança. Os lugares escondidos onde lia o diário da minha mãe, sempre na mesma gaveta à minha espera. Muito mais tarde confessei tamanho delito. Um papel de flores rosa forrava o meu quarto, talvez o tenha escolhido... E os dias eram solarengos e fáceis de sonhar vezes sem conta... as noites, lembro-as longas, com pesadelos tortuosos, alguns repetidos, e por isso difíceis de mergulhar de olhos fechados. Hoje, a noite é embalada pelo doce cansaço que me adormece os olhos das paisagens do dia, sejam elas cinzentas ou cheias de sol.

8 comentários:

  1. Tudo muda, mas as nossas memórias sempre nos acompanham!
    É bom ter-se memória...

    Beijinhos,

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. somos feitos de memórias...
      beijinho, mfc!

      Eliminar
  2. a melancolia da memória a aproximar passos e caminhos.

    beijinho, doce andy!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. há imagens de ser criança que voltam quase inconscientemente, uma necessidade de reviver, e como dizes, de tornar mais próximo aquilo que fomos/somos.

      :-) beijinho grande!

      Eliminar
    2. Andy,


      Um lindo poema.
      Unimos retalhos
      para fabricar a manta que suaviza a noite!
      Beijo grande

      Eliminar
    3. "Unimos retalhos
      para fabricar a manta que suaviza a noite!"
      que bonito, Petrus :-)
      um grande beijinho!

      Eliminar
  3. eu recordo todas as casas onde vivi, às vezes esqueço a minha
    talvez a saiba ver quando aqui já não morar

    [deste-me uma ideia...]
    [obrigada]

    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sucede-me quase o mesmo, às vezes penso que não sei vivê-la...

      (fiquei curiosa...)
      :-) obrigada eu, querida Laura
      beijinho grande!

      Eliminar