28.4.12

tempos

gomos de laranja e uma mesa perfumada
a espera numa cadeira
e as memórias que tocam o cabelo,
fez-me lembrar as raparigas que ouviam música,
colhiam flores e cerejas
como brincos que lhes enfeitavam os sonhos...
















         rabiscos Andy

respiração

fotografia de Andy
uma casa,
as janelas,
a manhã a espreitar para dentro
de todas as coisas sem nome
e as paredes aguardam em silêncio...

19.4.12

fotografia de Andy

para que não se apague esta frágil escrita
preciso do doce e amargo de boca
da dentada até ao centro de tudo
do suspiro a rondar todas as formas
preciso...

18.4.12

O sol entrou rarefeito pela janela do comboio. Poderia ter adormecido nessa sensação quente que apesar de ilusória me teria embalado o cansaço. Alguém tossia entre os dedos, alguém calava-se a cada paragem, e eu por breves segundos parasita da leitura do lado e “a vida num sopro”. Na rua o vento arrefeceu-me todos os passos mas a música murmura ao ouvido...

11.4.12

retalhos

algumas noites ainda me sonho naquela casa. Com aqueles metros de quintal até à porta de entrada, guarnecidos por manhãs de páscoa, uma flor de pétalas vermelhas. O chão empedrado, com algumas pedras soltas a confessar os seus anos de existência. E as escadas que mesmo em dias de sol, guardava uma doce sombra antes do terraço solarengo, onde avistava o mar e a rua que subia para os lados do Monte. A cozinha de chão vermelho e lareira com cortina de tecido leve mas garrido. A mesa onde desenhava. Os cadernos. O rádio do meu pai. Os sábados. O cheiro do chão encerado. O disco de vinil a tocar e os passos falsos de bailarina encenando o sonho de criança. Os lugares escondidos onde lia o diário da minha mãe, sempre na mesma gaveta à minha espera. Muito mais tarde confessei tamanho delito. Um papel de flores rosa forrava o meu quarto, talvez o tenha escolhido... E os dias eram solarengos e fáceis de sonhar vezes sem conta... as noites, lembro-as longas, com pesadelos tortuosos, alguns repetidos, e por isso difíceis de mergulhar de olhos fechados. Hoje, a noite é embalada pelo doce cansaço que me adormece os olhos das paisagens do dia, sejam elas cinzentas ou cheias de sol.

10.4.12

dias que corro

fotografia de Andy

Há dias que corro para sentir o sol, outros nem as janelas moram à minha porta. Tenho dias de cantar e respirar alto, sem que possa dizer que não conheço dias cinzentos. Tenho vivido assim, nessa ventania de folhas de outono, quando em remoinhos me foge a roupa do corpo, e o corpo da pele. Ridículo...quando na verdade, encontro-me a cada flor que me espera, e parece tão simples... se fosse! Que quero dizer? talvez que também as flores se dobram e perdem o fulgor...

3.4.12

pensei ouvir o mar

pensei ouvir o mar naquele incansável vai-vem
de águas que rebentam em flores de espuma
ou em lençois de água calma sobre o areal...
foi o tempo de perceber o cinzento do céu
a gotejar saudades da praia que nos abraçou