algumas noites ainda me sonho naquela casa. Com aqueles metros de quintal até à porta de entrada, guarnecidos por manhãs de páscoa, uma flor de pétalas vermelhas. O chão empedrado, com algumas pedras soltas a confessar os seus anos de existência. E as escadas que mesmo em dias de sol, guardava uma doce sombra antes do terraço solarengo, onde avistava o mar e a rua que subia para os lados do Monte.
A cozinha de chão vermelho e lareira com cortina de tecido leve mas garrido. A mesa onde desenhava. Os cadernos. O rádio do meu pai. Os sábados. O cheiro do chão encerado. O disco de vinil a tocar e os passos falsos de bailarina encenando o sonho de criança. Os lugares escondidos onde lia o diário da minha mãe, sempre na mesma gaveta à minha espera. Muito mais tarde confessei tamanho delito.
Um papel de flores rosa forrava o meu quarto, talvez o tenha escolhido...
E os dias eram solarengos e fáceis de sonhar vezes sem conta... as noites, lembro-as longas, com pesadelos tortuosos, alguns repetidos, e por isso difíceis de mergulhar de olhos fechados. Hoje, a noite é embalada pelo doce cansaço que me adormece os olhos das paisagens do dia, sejam elas cinzentas ou cheias de sol.