26.11.11

palavras ao céu


fotografia - Alfredo Laureano


a cada sopro vazio, há um tanto de palavras em papel de sonhos deixados ao céu, ao céu...
há um tanto de palavras recortadas com a mesma voz cristalina com que a água enfeitiça os rios, e me enlevo e me embalo
a cada sonho colorido,
asas de fogo plumas cor da pele...

25.11.11

o sol o muro o mar - Sophia Andresen

... Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos: silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de um pátio. Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a veemência da cal...

Sophia de Mello Breyner Andresen

23.11.11

o sossego estendeu-se pela tarde do jardim e o lago espelhou a cor rarefeita do céu e do verde que o contornava. Uma mulher tocava viola, curvada sobre o peito, e aconchegando a viola entre os braços e com a cabeça em posição de segredo, foi até ao murmurar de uma música sem destino. A música consegue sempre apanhar-nos indefesos de qualquer protecção, ela chega e o efeito acontece, de chama a incêndio, de orvalho a tempestade. E não me importo, só assim tudo faz sentido. E tudo tem melodia, até o silêncio que no lago mora, embala os céus que nele se deitam. Assim foi a tarde. O sol e o corpo, foram um só, de tanto o querer. E o quente ficou-me no sorriso e o verde nos ombros que se deitam mais leves...

20.11.11

arco-íris

há um canto colorido do pensamento,
esconde-se na melancolia da chuva,
mas segue o movimento de um arco-íris
a serenar o horizonte...

19.11.11

gotas de água

gotas de água escorrem pelo vidro
frias pérolas rasgam a imagem de aguarela
há mapas nesse percurso de água,
onde te leva o pensamento?

15.11.11


andei uns metros já com o tempo contado, valeu o coração acelerado porque cheguei a tempo... e a uns quantos bancos vagos! Lembrei-me da mulher que pouco antes me interpelou na rua. Desassossego meu em chegar, e não lhe percebi a voz, que quereria...?
Sentado em frente, o homem vestido de preto, mala preta e chapéu preto, a ler “cem anos de solidão”. Há fotografias que não se tiram, apenas se sentem...
E o céu já escuro, demasiado cedo para aquilo que pensei suportar, os fins dos dias, dos dias. Apressa-se uma calma, sinto ao longe o perfume da chuva que não me molhou, e a árvore ainda se parece com um bouquet, agora sem flores.
E quando for noite cerrada e o céu apenas chuva e lua, umas quietas palavras ficarão na sombra de um candeeiro por apagar...

9.11.11

lápis de sol


que um lápis da cor de todos os momentos
se enrole entre os dedos
e das palavras à terra
seja um simples sopro de lábios
e mãos apagadas
num fogo lento que arde e se apaga
rente às águas que correm dos céus
e no papel molhado
todas as horas sejam um conto
no sol dos meus dias...

7.11.11

Enigma

Que lei rege o poeta, ninguém sabe;
Que arcanjo o vela, também não.
Um poeta não cabe
Na sina que se lê na sua mão.

Miguel Torga

1.11.11

tempo


não há tempo nas palavras que o vento folheia, as horas são compassos menores no tempo do coração...