15.10.11

a casa estava quente e o candeeiro antigo compunha aquela aura de silencio que só o relógio de parede quebrava por todas as paredes até à pele... que num tremor aquele som sempre surgia. E não me fazia lembrar nem as horas nem o tempo mas talvez um momento suspenso no ar que ficava muito para além do mistério e do susto. A minha avó seguia-lhe os passos durante o dia e nada mais que alguns suspiros ou esgar de admiração lhe assaltavam o rosto. A mesma naturalidade acontecia com as minhas tias. À noite quando o ouvia parecendo um grito abafado, já elas dormiam e eu contava as horas da noite para que aquelas badaladas tivessem a cor do jardim e da roupa perfumada na corda.
Quando as portas se fechavam e ficava a noite, havia o cheiro e as cores das frutas no centro da mesa. Um chá de hortelã ou ervas doces a fumegar na chávena pintada e um prato com bolachas de manteiga que a tia Catarina fazia tão bem, com recheio de natas e sonhos que se derretiam com as palavras que quase se dizia.
Nas paredes viviam telas, bordadas por elas, faziam-me contar histórias em silêncio e levavam-me em pensamentos leves à velocidade das águas de um rio.
Junto às camas, colchas de croché coloridas e quentes lembrando tons campestres e o conforto de um abraço.
O chão de madeira antigo e frágil a cada passo, tremia ao compasso do relógio de parede...

10 comentários:

  1. ...um candeeiro antigo compondo auras de afeto, silêncio e luz.
    bom dia pra ti, Andy.

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  2. a harmonia das coisas afagada pelo silêncio da noite, um rosto/rasto de mulher.
    a derradeira frase trouxe-me de volta lisa germano e o seu imortal "wood floors".
    beijinho, querida amiga!

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  3. As recordações do tempo em que os sorrisos não nos abandonavam!

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  4. Rejane,
    como uma leve penumbra reacende luzes de memórias...
    belíssimo "auras de afeto, silêncio e luz"

    boa semana! :-)

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  5. Jorge,
    há rostos que nunca se apagam e rastos que não se quer perder de vista mesmo que num trilho invisível...

    Lisa germano, que saudades! inclusivé tentei reencontrar "wood floors", aquele mesmo vídeo que já anteriormente publicaste no circum-viagem (julgo), e não consegui...

    Beijinho grande, amigo!

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  6. mfc,
    há sorrisos que perduram mesmo na viagem do tempo...

    beijinho!

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  7. Quantos passos foram assim desenhados, nesse silêncio doce que protegia os ensaios de um voo ainda frágil. Um voo que tentavamos à noite, desafiando inquietações, enquanto os afectos prolongavam os braços que ainda hoje, nos impedem de cair em precipício.

    Perco-me e encontro-me, na tua escrita!

    Um beijinho do tamanho do mundo,para ti minha amiga, no compasso sereno de um relógio de parede.

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  8. Maria João,
    por tantas vezes, ainda hoje me sinto nas asas desse voo frágil, que haja sempre braços e abraços que desafiem o tempo e as inquietações...

    um beijinho-abraço,
    querida amiga!

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  9. "Um chá de hortelã ou ervas doces a fumegar na chávena pintada e um prato com bolachas de manteiga que a tia Catarina fazia tão bem, com recheio de natas e sonhos que se derretiam com as palavras que quase se dizia."

    É nas veredas da saudade que habitam as mais doces lembranças...
    No seu texto, revivi, minha própria infância...

    Obrigada querida Andy, pelo sopro das memórias...

    Um imenso abraço!

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  10. "É nas veredas da saudade que habitam as mais doces lembranças..."
    tão bonito, querida Márcia!

    obrigada por estar aqui,
    outro doce abraço!

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