30.10.11

perfumes

mergulhava as mãos na terra molhada, juntava mais água
até desfazer a textura áspera entre os dedos,
sorria até aquele perfume tosco, derramar-se até aos punhos.
sabe tão bem o cheiro da terra molhada,
e ainda hoje lembro-me das cores dos muros
que rodeavam aquele sorriso...
hoje, outros muros, outras cores,
e talvez (só talvez), a mesma vontade de sentir,
estendo os braços em jeito de entrega,
mas só até aos punhos, a vida me disse assim...
e desfazendo os nós dos dias,
há sempre o perfume da vida que se arrasta comigo,
e nem sombra, nem sol,
apenas os gestos de infância que
guardam tanta certeza num simples sorriso,
sabe tão bem o cheiro da terra molhada...

24.10.11


acaba por ser sempre o mesmo jardim
talvez as árvores já conheçam
as horas e o tempo
de me entardecer com um céu assim...

23.10.11


O dia ainda não nasceu e já reconheço o cheiro do frio que entra pelos vidros. Nem vento, nem gotas de água... um sopro frio que embate contra a pele. Tento perceber a natureza desse afável mas também incómodo sentir, e deixo-me ficar... mesmo que vestisse os tecidos mais quentes, ia senti-lo igual. Todos os dias respiro bem fundo, mesmo que neste limbo ocasional, onde o corpo sente em silêncio porque as palavras não surgem no papel. Um dia farei uma fogueira das poucas palavras que ficaram, e mesmo com espinhos renascerão novas flores cor de sangue. Porque as cores esbatem-se com o tempo e prometi-lhe que mesmo nas horas e segundos de silêncio, haveria sempre cor no meu regaço. O tempo espera-me e secretamente desejo estar à altura das linhas que a minha mão contém, e na viragem de cada calendário quero sorrir mesmo que ardam flores com espinhos rompendo um novo amanhecer.
O piano continua a tocar...

18.10.11


"E aqui anda a noite à roda e eu com ela como um papelinho com que o vento brinca, apanha-me, larga-me, empurra-me, corre, mais adiante, a prender-me nos dentes, esquece-se de mim, torna a lembrar-se, poisa-me uma pata em cima, vai-se embora. O vento."...


António Lobo Antunes

15.10.11

a casa estava quente e o candeeiro antigo compunha aquela aura de silencio que só o relógio de parede quebrava por todas as paredes até à pele... que num tremor aquele som sempre surgia. E não me fazia lembrar nem as horas nem o tempo mas talvez um momento suspenso no ar que ficava muito para além do mistério e do susto. A minha avó seguia-lhe os passos durante o dia e nada mais que alguns suspiros ou esgar de admiração lhe assaltavam o rosto. A mesma naturalidade acontecia com as minhas tias. À noite quando o ouvia parecendo um grito abafado, já elas dormiam e eu contava as horas da noite para que aquelas badaladas tivessem a cor do jardim e da roupa perfumada na corda.
Quando as portas se fechavam e ficava a noite, havia o cheiro e as cores das frutas no centro da mesa. Um chá de hortelã ou ervas doces a fumegar na chávena pintada e um prato com bolachas de manteiga que a tia Catarina fazia tão bem, com recheio de natas e sonhos que se derretiam com as palavras que quase se dizia.
Nas paredes viviam telas, bordadas por elas, faziam-me contar histórias em silêncio e levavam-me em pensamentos leves à velocidade das águas de um rio.
Junto às camas, colchas de croché coloridas e quentes lembrando tons campestres e o conforto de um abraço.
O chão de madeira antigo e frágil a cada passo, tremia ao compasso do relógio de parede...

14.10.11

Os olhos ardem-me, sem poesia ou metáforas, os olhos simplesmente ardem-me. Um vento fresco veio com a noite, e é bom senti-lo suave nos olhos. A avenida está sem graça, rente ao passeio fazem obras que nunca mais findam... felizmente hoje há luz nos candeeiros, porque ontem, olhar pela janela era um escuro maior que a própria noite. Tive que espreitar amplamente e confirmo, a lua e uma pequena estrela permanecem no céu.
Pela tarde, passei no Chiado, de fugida como num abrir e fechar de olhos... passei pelas esplanadas cheias, com os chapéus de sol abertos, com vozes e sorrisos a guarnecerem a tarde, passei pelos croissants, pelos gelados, pela igreja, pelos pombos aqui e ali... sem tempo, sem quase tempo para um doce... e de fugida, como num abrir e fechar de olhos.
E se sempre testemunhei um qualquer brilho inexplicável na cidade, hoje estava indiscutivelmente brilhante debaixo deste sol quente de outono.

7.10.11

trago no bolso uma folha de papel vincada pelos dias que não escrevo. O vento passa pelos lábios secos de palavras vagas, e em ventania pegada mostra um dia após o outro como folhas soltas de um livro sem nome. Ficar-me-à na memória este céu azul que aquece o rasgar dos olhos e me acende memórias de lugares meus. Aqueles lugares que podem ter a forma de um caminho, de uma sombra, de um sorriso ao virar da esquina, do pássaro que parou na janela, do cheiro a verde, a terra, do sabor doce a corar o rosto.
Mãos nos bolsos, a caminhar... e haverá o dia em que um alo de cor desconhecida contará a cada passo e em prosa desgarrada as flores de açucenas que a vida colheu. Há perfumes que não se esquecem...

5.10.11

anoitecer de outono

berenika
.

tenho parado junto do baloiçar das árvores com a certeza que o silêncio da escrita um dia acontecerá. Haverá o dia em que as palavras se tornarão desbotadas, diluídas no próprio coração de uma janela de outono.