30.8.11

A tarde fez-se de um cinzento frio e a chuva desabou suave no anoitecer. Um tapete veludo feito de água percorria a estrada e o cheiro de outono perseguia cada curva. Lembrei-me do trajecto de comboio e do quanto guardava saudades de sentir o pensamento fluir livre, simples, de roda do dia e quase na noite. E do pensamento à palavra, como flores amanhecendo esventrando silêncios. Viajava como se viaja de alma à janela e caneta presa à mão que fala junto ao peito. E mesmo que não escrevesse, os lábios cantavam o sorriso de uma música em segredo. À semelhança disso, hoje canto ao volante de voz discreta e larga de saudades. Canto ao dia e às pessoas que hoje me ficaram na memória. Às conversas de linhos, dobrados, roubados que na gaveta por milagre restaram, dizia-me. Aos amores e desamores que lhe afloraram um sorriso e um olhar perdido de voz incerta. E no limbo das vozes chamo a chuva e chamo a noite...

25.8.11

meia-noite


meia-noite. Os olhos cedem e o corpo pulsa as badaladas dos sonhos mais esperados.
Candeias acesas no escuro da noite, ramos de alfazema no branco tosco do papel por escrever. Já rasguei quantas linhas... ardem na lareira de chamas em silêncio.
Eis então as formas aladas em rodopio, asas de anjos e estrelas de papel.
Poeira, poeira de sonhos nos dedos, vou de candeia acesa na mão, pelos labirintos da noite.

24.8.11


Há um cipreste no jardim mesmo em frente às horas que não passam.
Percorro-lhe todo o verde com o tempo que suave murmura entre as folhas. Alongo o olhar até onde ele se perde sob as nuvens e demoro-me nos pormenores.

Não me importo se em neblinas me perco... hoje, um dia sombrio traz-me afagos de calma.

20.8.11


"... quando era criança julgava que a lua era feita de açúcar. sentava-me no poial, olhava a roupa estendida a secar mover-se na brisa e os hibiscos vermelhos tremendo no fogo da lua cheia. ficava muito quieto, esperava que a noite se tornasse mais densa, misteriosa, e deixasse cair fios prateados sobre o jardim. acreditava que, um dia, a lua derreteria e todo o jardim se transformaria numa imensa doçaria. então, erguia os olhos para o negrume salpicado de astros, sentia-me ficar adulto. sentia-me crescer por dentro e por fora..."

Al Berto, O MEDO (1)

16.8.11

entardecer

O céu fica só mas com laivos de luz, e um vento fresco a lembrar o cheiro do outono, refresca-me quando abro a janela.
Tenho sentido o mesmo há uns dias. Não trocava por muito mais.
Às vezes já a noite é enorme e volto para sentir o mesmo. Já a janela decorou as minhas horas e o céu fitou o meu olhar.
Há um breve silêncio no entardecer como se a poeira pousasse e um frio acutilante chegasse rente ao peito e não largasse mais... e às vezes faço tudo cantando, outras nem só o silêncio, apenas a janela que decorou as minhas horas.

15.8.11

o corpo tem mais cotovelos

“O corpo tem mais cotovelos” é a exposição que tem lugar na Casa das Histórias Paula Rego em Cascais, até 31 de Dezembro de 2011.
Diz-se que o título da exposição surgiu de uma conversa informal em que a artista evocava a difícil tarefa que é trabalhar com Modelo e através do Corpo, da sua expressividade e presença.
Estão expostos uma série de desenhos a lápis, alguns são estudos para pinturas, que resultam da observação directa do modelo. Percorremos os esboços que principiam algumas das suas obras mais marcantes, por exemplo “Love”, “anjo” levando-nos de forma faseada ao culminar das obras...
Com uma linguagem muito própria que rasga o olhar mais suave sobre todas as coisas e nos faz reflectir sobre o tão amplo e abstracto mundo dos afectos, do ser e estar. Foi um frente a frente contemplativo mas também interventivo, uma vez que somos muitas vezes levados a nos questionar e procurar um ponto de encontro ou não, com o nosso próprio sentir.
Consegue-se perceber a paixão pelo desenho e pela figura humana. E não guardo dúvidas que o seu traço profundo e emotivo escreve histórias que jamais nos deixarão indiferentes. Gostei imenso!

10.8.11

Desafio


10 perguntas, 10 respostas, 10 amigos!
Foi o desafio lançado por Miguel Loureiro, editor do blogue contra-facção, do qual sou leitora assídua. Trata-se de um desafio literário proposto a um grupo de pessoas, editoras de blogues, no qual fui também incluída. Pelo que embrenho-me nesta corrente literária com a respectiva insegurança, valendo a pena dizer que não estarei à altura, ainda assim, é com entusiasmo e agradecimento profundo que me desafio responder. Obrigada Miguel!
Salvaguardo que a leitura não acontece com a frequência que deveria ou que gostaria. O tempo é sempre pouco e tantas são também as vezes que o pensamento divaga até sobre linhas já escritas.
Arrisco ainda dizer que são imensas as histórias reais que leio nos olhos de tantas pessoas. Pelo que o fim do dia é o refúgio apenas com espaço para um imaginário que apenas liberta sem muito absorver...




E finalmente as respostas!
1 - Existe um livro que relerias várias vezes?
Não me imagino fazê-lo na íntegra mas há vários livros de poesia que me trazem saudades e acabo por os reler pontualmente, o suficiente para os recordar.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Foram alguns...
3 - Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Talvez os diários de Miguel Torga. Já li o primeiro.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Muito provavelmente, “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago.
5 - Que livro leste cuja «cena final» jamais conseguiste esquecer?
Prende-me sobretudo a subtileza das coisas no decorrer do livro.
6 - Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual o tipo de leitura?
Não tinha o hábito de ler. O primeiro livro que me lembro de ler na íntegra e já era adolescente, foi “Os filhos da droga” de Christiane F.
7 - Qual o livro que achaste chato, mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Nenhum. Não consigo simplesmente terminá-lo.
8 - Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não posso deixar de referir, o livro “Cuidar... a primeira arte da vida” de Marie-Françoise Collière que durante o curso de enfermagem e também mais tarde já profissional me foi importante, assim como o seu também “Promover a vida”.
E as minhas preferências vão sobretudo para livros de poesia ou prosa poética.
Sou uma apaixonada por Sophia de Mello Breyner, e saliento um conto que consta no seu livro - Histórias da terra e do mar – “O silêncio”, simplesmente lindo!
Sem esquecer Al Berto, “O medo” uma compilação das suas obras, gosto verdadeiramente!
Tenho de referir de Alice Vieira “O que dói às aves”, um livro de poesia que me encantou sobre maneira, ainda hoje!
E sem esquecer, José Luís Peixoto, já li, “Nenhum olhar” e o “Livro”, adoro lê-lo!
9 – Que livros estás a ler?
Estou a ler de Isabel Abcassis Empis, “Bem-aventurados os que ousam!” e “Maça no escuro” de Clarice Lispector
10 - Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.
Maria João Martins do PEQUENOS DETALHES; Jorge Pimenta do viagens de luz e sombra; LauraAlberto do Im.Possibilidade; Petrus do a partir da lua ; mfc do pé de meia; Márcia Magalhães do Poetar é Preciso; AC do Interioridades; equipa do Ler é viver; flor do Trespassa meu corpo e aconchega minha alma; Lilá(s) do Perfume de Jacarandá

1.8.11

do mar

Já se descia a rua e o mar lá em baixo parecia um lago de tão sereno. Continuava-se a descer e parecia tão imensamente doce a acariciar o areal. O sol estava alto e aquecia os ombros com saudades de serem molhados. As escadas de acesso à praia eram em madeira e faziam lembrar as de uma outra praia num verão longínquo. Eram tantas as pessoas que pareciam desfrutar do momento, um arco-íris de toalhas e chapéus de sol preenchiam o areal. A areia não era fina e macia, mais parecia um tapete de pedrinhas massajantes sob os pés em direcção ao mar e quanto mais se descia junto à água, mais as pedras brancas e escuras se sentiam maiores. Confirmei a serenidade do mar e fiquei de olhos postos em cada pequena onda que desaguava junto aos pés. Depois mais junto ao corpo tomei um abraço salgado de toda aquela água que não poderia estar mais a meu gosto. Molhei o cabelo como em criança com aquele secreto desejo que o sabor das algas me alisassem o ondulado. Nadei contra o sol com a certeza que nos meus ombros se pousara e comigo testemunhava este mar que tantas tardes irei recordar.