3.5.11

fotografia

A noite sossegou da janela para fora... mas nem sempre essa quietude se prolonga livre pelas paredes e memórias do dia. Por vezes os minutos e as horas vividas ficam do lado de fora, pintando um novo dia que virá amanhecido e deslumbrado, outras, o dia fica-nos como vestes que nos habitam mais ou menos luminosas, contagiando o que sentimos, o que falamos, e até a forma como pegamos no lápis ou desfolhamos um livro, nem que seja o da nossa própria vida.
Há concerteza momentos em que deixamos um pouco de nós sobre aqueles com que nos cruzamos, mas acredito que existem momentos dos outros que nos ficam, durante horas, até dias, como segredo do mar bramindo no sussurro de um búzio. Fazem-nos rasgar emoções, desequilibrar atmosferas e nem uma folha de papel ou poema escrito destilaria tais sensações.

As palavras tomavam forma entre os seus lábios trémulos e olhos salgados. Entre o que a fazia lá estar, até o que surgiu em conversa foram apenas escassos minutos, falava-me então do filho que perdera com apenas 15 anos. Enquanto falava mostrava a sua fotografia. As imagens de uma vida que fora leve e solta, desprendida ao sol que todos os dias ousava brilhar, aconteciam nos meus olhos, quando olhava para a fotografia a preto e branco, que me surgia cheia de cor, de vida e de memórias.
Não há dor que se apague e não há presente que aconteça para esquecer...

12 comentários:

  1. As memórias sempre nos acompanham.... e felizes aqueles que sabem conviver bem com elas.

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  2. Uma mãe que perde um filho, transforma-se numa alma amortalhada. O seu coração fica esfacelado. Tenta-se aprender a gerir a dor, a sofrer com serenidade. Mas a dor, essa é eterna.
    Um grande abraço.

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  3. Olá, Andy
    Vi-te no blog da amiga Maria João e, não sei porquê, despertaste a minha curiosidade...
    Resolvi então vir conhecer o teu espaço (são dois... mas começo por este).
    Gostei muito, e acho que precido vir com mais tempo para apreciar melhor.

    Este último post é muito bom.
    Eu penso que a dor de perder um filho é impossível de imaginar. Só quem passou por essa situação a pode avaliar.

    Se quiseres visitar-me e ser minha seguidora dar-me-ás muito prazer.

    Boa semana. Beijinhos

    Ah! E se fores ao lançamento lá nos conheceremos:)

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  4. somos um todo porém únicos... Soma

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  5. mfc,
    concordo inteiramente.
    :-) obg!

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  6. Isabel,
    imagino igualmente que seja uma dor infinita...
    e por vezes incapacitante para continuar a gerir a vida... (digo)

    Obg
    outro abraço!

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  7. Mariazita,
    é um prazer receber-te neste modesto espaço...
    de facto, é uma situação que como referes, quase impossível de caracterizar na sua dimensão sem ter passado por tal, ainda assim...

    mais uma vez obrigada pela tua presença e palavras positivas!
    Beijinho e até ao lançamento :-)!

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  8. Bya,
    somos o conjunto de tudo o que vivemos e por fim...somos
    :-) beijinho!

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  9. querida amiga,
    nos tempos que nos habitam e nos tempos que habitamos, seja do lado de dentro, seja do de fora, o fio da vida germina na mão de cada um, mas apenas se completa no que deixamos ficar e trazemos das dos outros.
    eivado da mais dócil sensibilidade o teu post. obviamente.
    beijinho grande!

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  10. Fantástico!
    Leio e releio o texto. É breve, mas profundo no seu conteúdo.
    Em poucas palavras ficamos a conhecer a verdadeira dimensão da dor que a mãe sente pela perda do filho.
    Muito curiosa, a utilização da fotografia: a sua exibição sugere as imagens da vida, que estão a ser narradas, conferindo-lhes autenticidade.
    A dor da mãe entranha-se, inexoravelmente, na memória da interlocutora ... Aí está. Acontece para não esquecer!
    Lindo!
    Bom fim de semana
    Beijo

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  11. Jorge,
    "...o fio da vida germina na mão de cada um, mas apenas se completa no que deixamos ficar e trazemos das dos outros."
    repousei na tua frase, belíssima!
    Obg e beijinho, amigo!

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  12. Petrus,
    obrigada pelas tuas palavras, sempre de um profundo incentivo.
    :-) beijinho!

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