23.5.11

anoitecer

depois do ruído dos candeeiros e das árvores que gemem lá fora ao frio, começa-se a recear lentamente a noite, e as folhas em branco que embatem no silêncio da voz.
Os olhos fecham-se de água em flor, latejando em frente a qualquer história de encantar. Há letras que não se escrevem, a tinta extingue-se no murmurar do dia.
Há sempre uma canção e um livro que ficou por ler. Há o cansaço feito suor que escorre agilmente nas horas. Há o sorriso das crianças por adormecer.
E o dia esbate-se como num fio que se quer cheio de luz, mas ténue e rápido como o tempo que mora para além das memórias, como o tempo que não pára e não se cansa porque assim se precisa...

19.5.11

outonos


se os joelhos não tremessem nas areias movediças dos dias. se as mãos enxutas deitassem por terra os limbos de sal que alguma vez se consegue suster dentro de todo o silêncio de uma lágrima. se conseguisse encher os olhos de horizontes e neles repousar...
seriam flores a cada passo, e os meus outonos nascentes de primaveras...
e não serão, senhores?

15.5.11

Do outro lado do espelho




Foi ontem o lançamento do livro "Do outro lado do espelho" da minha querida amiga e poetisa Maria João, do blogue Pequenos Detalhes. Aceitei o desafio e foi uma honra fazer parte da capa deste belíssimo livro, com um desenho meu. São tantos os maravilhosos poemas, mas escolhi este...



Simples poça de água

Trago ao peito,
a linha descontínua
do traçado de um mapa
e todos os dias cegos,
talhados à força do impulso.
Trago nas mãos
a rocha, lava liquefeita,
travo amargo de todos os medos
que gotejam no tempo,
o fermento dos nós
no laço dedos.
No regaço,
trago um espaço
onde dançam as estrelas,
prenhes de todo o brilho do mundo,
no prolongamento do céu.
O mesmo céu, plúmbeo
que tantas vezes
me inunda a mágoa, de mar
e a vida, de néctar da uva,
sabendo-me...
simples poça de água
berço das gotas da chuva.



Maria João Martins




Um imenso obrigada, por esta alegria, amiga.


Muito sucesso para ti!

14.5.11

a manhã nasce sorrateira e levemente. Entra pela casa em fugaz silêncio e levanta o ténue véu que a noite deixa nos seus demais folhos...
Fui à janela como sempre, sentir o perfume da manhã e perceber o céu, como se este derradeiro momento fosse a inspiração e guia para todo o dia.
O interior da casa precisa de mim. Inevitável e imperioso.
Objectos, momentos, roupas e pó dos livros... mudarei a água da jarra, regarei a azália, darei outro nome a tudo o que se chama desordem. Há recantos da casa que nos chamam sempre à razão, acima de todas as confusões simples e expontaneas.
Os pássaros cantam e ainda assim o rádio continua no canto lírico porque me acalma, afina os sentidos e a memória.

7.5.11

chama-me constança





"Tu e a lua-cheia dos desencantos das noites. Nunca me disseste porquê nem eu saberia perguntar. As minhas perguntas são sempre de hoje. E naquela noite nem sequer abri a janela porque te incomodavam os pássaros no seu cacarejar roufenho matinal.
Eu sabia que não gostavas do chá muito quente e que o limão aquecia o sonho. Devagar, sempre o soube. E tu continuavas na espreguiçadeira da ponte alta a desmembrar estrelas como se os grilos gritassem obscenidades e as lagartas se cravassem na garganta de cada vez que a sirene tocava na ponta dos teus dedos."



Maria Quintans

3.5.11

fotografia

A noite sossegou da janela para fora... mas nem sempre essa quietude se prolonga livre pelas paredes e memórias do dia. Por vezes os minutos e as horas vividas ficam do lado de fora, pintando um novo dia que virá amanhecido e deslumbrado, outras, o dia fica-nos como vestes que nos habitam mais ou menos luminosas, contagiando o que sentimos, o que falamos, e até a forma como pegamos no lápis ou desfolhamos um livro, nem que seja o da nossa própria vida.
Há concerteza momentos em que deixamos um pouco de nós sobre aqueles com que nos cruzamos, mas acredito que existem momentos dos outros que nos ficam, durante horas, até dias, como segredo do mar bramindo no sussurro de um búzio. Fazem-nos rasgar emoções, desequilibrar atmosferas e nem uma folha de papel ou poema escrito destilaria tais sensações.

As palavras tomavam forma entre os seus lábios trémulos e olhos salgados. Entre o que a fazia lá estar, até o que surgiu em conversa foram apenas escassos minutos, falava-me então do filho que perdera com apenas 15 anos. Enquanto falava mostrava a sua fotografia. As imagens de uma vida que fora leve e solta, desprendida ao sol que todos os dias ousava brilhar, aconteciam nos meus olhos, quando olhava para a fotografia a preto e branco, que me surgia cheia de cor, de vida e de memórias.
Não há dor que se apague e não há presente que aconteça para esquecer...