27.4.11


há balões de sóis que explodem nos lábios antes de se decifrar o sabor das palavras...

25.4.11

desenho

conseguisse eu fazer um desenho... como aqueles desenhos quase reais em que se vislumbra uma certeza nos contornos. Sentiria o lápis com a mesma segurança que têm as raízes junto da terra mesmo que molhada e sim, cravejava o traço no papel como se fora no peito, a abrir caminhos como os mil tantos que a minha mão segura... e de traços feitos e rarefeitos, surgia um sombreado de grito abafado, até ficar esbatido, até ficar, até sempre, até já nem existir cor ou sombra nos dedos... até deixar de sentir.

22.4.11


um sopro que me leve em abraços rente ao orvalho da manhã,
quando o sol despontar, serão mais verdes os campos e mais pleno o céu.

17.4.11

viagem



há caminhos que não existem na bússola que nos cerca as mãos, há mares e rios que se perderam das rotas de sempre e de agora, assim como há um frio-norte impossível de quantificar, mesmo que na pele tragas a expressão desse sentir. Existem palavras que se soletram a cantar, as palavras por quais o silêncio não espera, e vivem a um canto dos lábios, o mesmo doce canto do coração. Sabe-se de um baloiçar o corpo conforme o vento nos leva, segreda-nos ao ouvido, e assim dançamos ao som das tempestades, dos mares calmos e das flores que germinam afogadas em sonhos. Há felizmente um horizonte em que as vozes se tocam e te ouves além de já te teres ouvido vezes sem conta, mergulhas nessa melodia que te perfuma as têmporas com cheiro a jasmim e no regaço das pétalas, alongas o cabelo que te acompanha o olhar... e descansas como se as estrelas te acompanhassem na viagem das tuas palavras.

5.4.11

debrucei-me na janela, a mesma de todos os dias. Uma brisa quente aflora os olhos rendidos... o sol despede-se do dia prometendo voltar e a avenida cobre-se com um último manto de luz esbatida até ao horizonte dos meus pensamentos.

2.4.11

lá fora os candeeiros anunciam mais uma noite que se estende pela rua não-silenciosa, corre um fresco ligeiro que afaga os cabelos e de imediato faz o olhar se perder até ao fundo da rua. O bar que mora uns metros abaixo, já toca a música que todas as noites de sábado contagia as paredes mais silenciosas. E da varanda, são tantas as vozes que fazem eco à saída e entrada da porta preta e pesada. O eco propaga-se em retalhos de memórias porque fora um dos bares onde eu e a sandra, gostávamos de ouvir música, na idade em que as estrelas caminham ao compasso de uma emoção desmesurada. Tão pouco imaginaria que anos mais tarde, viria a viver uns tectos acima de tanta emoção. Foi com ela numa tarde de crepes com açúcar e canela, que aprendemos a assobiar alto, fora uma promessa cumprida, só saímos daquela janela quando os rapazes da rua nos ouviram com sucesso, e nós com uma cabeça cheia de tonturas e gargalhadas de tanto oxigénio perdido. Fecho as cortinas à noite e às memórias que vivem junto à pele como num arrepio que nos conserva o quente do coração. E daqui... uns tectos acima da música, o silêncio venceu e os olhos brilham por tamanha tranquilidade, ainda que fugaz, é este o momento que preciso.

1.4.11

olhar

escolhi o tempo
escolhi o céu e o mar
até escolhi as folhas de outono em que caminhei
escolhi o verde
e até os nenúfares e flores
que perfumaram as mãos

mas é sempre para a janela de estrelas
que me demoro a olhar