28.2.11

o complexo de sagitário


"O que perdi nessa noite, disse-lhe, foi a possibilidade de associar uma beleza terrena ao infinito que se abria à minha vista quando no intervalo dos seus cabelos, o céu me surgira; mas ao mesmo tempo a relação entre o seu seio na minha mão e a Via Láctea fizera-me perder o contacto com a realidade, atirando-me para uma região abstracta onde não conseguiria mais do que perder-me num intervalo entre o infinito e a eternidade em que a minha pequenez me transformava num simples átomo, e essa sensação fizera-me empurrá-la de cima de mim e afastando os arbustos, ter-me despedido num brusco adeus..."

Nuno Júdice

27.2.11

clube ferroviário


Não querendo me repetir, o clube ferroviário continua a tornar as noites de Lisboa mais quentes neste inverno rigoroso, a minha visita foi na semana que passou e desta vez quase fugaz mas ainda assim, consegui sentir o ambiente festivo, desta vez em torno do tango. Pela porta entreaberta numa sala mais reservada, lá estava a beleza dos movimentos, a música, as roupas e o ambiente intimista. Para os mais corajosos existem workshops de tango, onde será possível dar largas a talentos escondidos, quem sabe...
Aqui fica o link para mais informações sobre as noites no clube ferroviário.

26.2.11

enquanto a vela arde

há uma cor quente de amarelo sol nas paredes frias
a noite caiu num frio norte
há um veludo preto longe das ruas desertas
o olhar húmido e rasgado no horizonte
há um corpo vestido com as memórias da pele
o ventre arde em flor
há um silêncio discreto enquanto o cabelo se enrola entre os dedos
enquanto o relógio repete os mesmos segundos
há uma penumbra na voz
e a noite acontece mesmo que o dia não morra

22.2.11


Luz e sol e pintura
sobre o telhado à noite a lua cresce
abro os olhos como um barco pelas ruas
no entanto outonece

Sophia de Lello Breyner Andresen, ilhas

15.2.11

eco


talvez sem voz que se desenhe no papel até porque já todos os papéis rasguei em frente ao silêncio e nem as letras sobreviveram.
Confesso, é tão reconfortante às vezes cerrar os lábios até à língua e digerir sozinha, fragmentos invisíveis que estilhaçam artérias. Virar as costas às razões, definições, estratégias, contextos, fungos e organizações...
Gritar a pleno coração e ficar à escuta do eco que volta suave e adormece as noites mal dormidas. Alisei a almofada e mudei-lhe a cor, os sonhos agradeceram.
Suspiro de alívio até porque consigo antecipar a sensação de uma leve brisa tocar a pele e porque prometi às flores jamais as esquecer.
Fico à escuta...

9.2.11

água

a água lava e ferve de encontro aos ossos
e deixo-me ficar
talvez aqueça todos os órgãos até às células
a água dilui-se no mapa da pele
felizmente os poros abrem-se
e deixo-me ficar
os joelhos ardem e coram
fecham-se os olhos
deixo-me ficar

maças do rosto

Há coisas que não se consegue partilhar, mesmo que já tenhas suspirado vezes sem conta, que já tenhas metido as mãos aos bolsos num movimento de disfarce, que os olhos ainda brilhem mas enfim, apenas porque é dia... não adianta, as coisas moram caladas na direcção do umbigo e formam um desgosto ascendente que te cerca as palavras. E não adianta matar a sensação com o segundo chocolate negro da semana, ou disfarçar até com uma cebola que cortas afincadamente e naquele momento tanto jeito te dá...
Mas há momentos que os olhos ainda te sorriem e o coração transborda e parece que te reconheces como se os dedos ainda sentissem os contornos da alma e pintassem as maças do rosto, de alegria. E sim, as árvores já florescem e ainda te comoves... e sentes então, que talvez haja uma esperança para os dias anoitecidos, aqueles em que o sol parece não brilhar.

5.2.11

black swan


Os bastidores do palco e da vida, contam a história de Nina, uma bailarina que dedica a sua vida à dança. Nina pertence à companhia de Ballet de Nova Iorque e é a primeira escolha para interpretar o imortal “Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Segue-se uma derradeira e enigmática competição entre ela própria e uma possível bailarina substituta para o seu lugar. Nina é a verdadeira personificação do cisne branco pela sua harmonia, serenidade e doçura. A forma como surge o seu cisne negro... possível de interpretá-lo em palco, foi uma árdua descoberta, ultrapassando inseguranças, medos e auto-controlo, tentando invocar o seu lado mais malicioso e sensual. Um drama que se desenrola muito perto do terror mas sobretudo da beleza, dança e música.
De: Darren Aronofsky
Com: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder, John McLaughlin
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