30.12.10

e termina...

E mais um ano que termina em passos lentos, já deixa saudades dos momentos em que até o céu nos sorriu, mas sem dúvida também nos traz a sensação de nos libertarmos do que não terá sido tão fácil assim...
despirmos roupas velhas e darmos farpela nova à alma que se quer forte e preparada para um “começar de novo”, é um dos desejos.
Uma nova primavera, um próximo outono... e a cada dia seremos mais autênticamente nós, nesta caminhada incessante, em que não vale baixar os braços, mesmo que em dias cinzentos nos esmoreçam as forças e se sinta quebrar a ligação com o universo.
Que a vida nos inspire e nos torne caminhantes cada vez mais sábios nesta descoberta que é Viver.
Que esteja sempre à mão um sorriso rasgado, uma lágrima em forma de coração, um abraço e uma música para trautear nos dias mais sombrios. Que haja sobretudo coragem para olhar de frente o novo dia.

Entretanto o “Lua” faz nesta passagem de ano, dois anos de vida, quero agradecer profundamente a todos os que por aqui passam, com a certeza de que é a vossa presença o alimento essencial desta existência. E já agora o desejo, de que a voz que aflora o papel, nunca nos falte com ou sem blog!
A todos um imenso obrigada e um Ano 2011 grandioso!

28.12.10


há candeias que se acendem pela noite dentro, com mãos de fada e olhos que brilham no escuro da sombra dos teus.

27.12.10

frio

todo o dia caminhei contra o frio, virei costas, soltei suspiros, mudei de rota, mas fui sempre surpreendida, também por aquele frio que se aloja no peito e contamina as horas e segundos e nem o sol se põe e nem o frio se esconde, às vezes não há nada a fazer...
“eu sei todos os caminhos”, alguém passou e disse. Pensei, talvez haja sempre um caminho que nos surpreenda de tão desconhecido, e não sei aliás, se gostaria de os conhecer todos. Não sei o que mais temo, se me sentir perdida ou sentir que não haverá rua alguma que desconheça.
Todo o dia sempre que me apoiei, senti aquela dor no punho, persistente dor que moi até aos cantos do corpo. Não há nada que mais estime como o silêncio do corpo. Nem todos os dias são silêncio, e nem sempre o corpo se rende. O corpo fala por nós, se não o dissermos.
Visto o casaco até ao frio que sinto, guardo as mãos nos bolsos, mas nem algodão nem lã, apenas o frio...

21.12.10


nem em folha de cetim, nem nos acordes da música... apenas um momento suspenso no ar, e o frio. A cor do frio, cortante navalha que até a alma silencia... nem nos arrufados ramos e troncos de árvores que abracei, onde as palavras também um dia se perderam.
Os pássaros recolhem-se e no céu, fica apenas um rasto de nuvens rasgadas por asas brancas.
E qual gato tigrado de olhos feito lua, pelas ruas em pés de veludo. .. sete árvores e uma colina de raízes em punho para além da realidade, o sonho disperso na melodia do vento que morre de frio.

17.12.10

sopro

os olhos ficaram com a cor do fruto
num vislumbre de veludo
como aqueles lugares que não sabemos deixar
e nos ficam na pele como a corar o rosto de coisas coloridas
os lábios tocaram o doce da framboesa
e calaram a voz
ainda há pouco salgada

15.12.10

cópia certificada


Juliette Binoche
William Shimell


Poderá uma cópia ser superior ao original?
E poderá um encontro improvável, recriar emoções vividas há 15 anos atrás?


um filme de Abbas Kiarostami __________________________________________________________

13.12.10

dias de quase natal

Os dias têm me parecido longos para além de frios... sim, falta-me tempo para uma infinidade de coisas, mas talvez gostaria que fossem mais breves em determinadas fases.
O momento ansiado acaba por ser aquele em que me entrego num abraço desmesurado e de pura ilusão, à noite. Desejando sofregamente que esta seja tão longa quanto o dia.
Ainda me lembro quando a noite era o medo das coisas mais temidas, quando até um frio no estômago me nascia em saber que já anoitecia. E não sei se me faltaram histórias de embalar, mas lembro-me bem da casa de infância, durante a noite quase paredes meias com o quintal do vizinho, as gatas com cio gritarem noite fora... e tal efeito eclodir fortemente na porta dos sonhos e só me arrancar pesadelos ao coração.
Hoje a noite tem este feitiço de tanto a desejar, ou para me adormecer do cansaço, ou para deixar-me levar pelas palavras que escrevo.
E não sendo pesadelo, o frio tem tomado conta de nós e os vírus estão invencíveis nesta casa, esta é uma dura realidade.
E talvez este natal venha a ser o mais recatado de todos, embrulhados em mantas, com os sapatinhos na lareira à espera que a noite de mistério traga aconchegos também à alma. E ver os sorrisos das crianças se possível menos congestionados e com uma esperança de que o bom tempo também virá.
A árvore brilha perfeita ao canto da sala e talvez nunca tenhamos tido uma tão bonita como este ano. O presépio foi feito em barro, pelas crianças também, ninguém se parece com ninguém, nem as ovelhas parecem ovelhas, nem S. José se parece com ele próprio, mas conseguimos dar "vida" às imagens que também vivem dentro de nós.
Deixei por fim no manto branco, estrelas quase purpurinas, e fiz para os anjos uma auréola de brilhantes. E no meio de um musgo perdido, ali está o que se assemelha com um muito modesto presépio de natal.

10.12.10

flor de inverno

lentamente a noite cai...
mas nem o vento murmura entre os dedos,
nem a chuva escorre junto à vidraça.
talvez o frio... mas nem o frio...

as palavras desabrocham num areal sem nome
sem melodia nem mar

5.12.10


"As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse necessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo inteiro."

O silêncio
Sophia de Mello Breyner Andresen

4.12.10

farol

Madrugada. Percorri a inteira-noite com pés de lã e joelho quase partido, assim parecia...
aguardo que o sol chame por mim e me acorde das sombras que inflamam a noite escura.
Ficamos sempre à espera que as estrelas rezem por nós e na lonjura dos desejos nos mantemos firmes como o primeiro dia. Talvez...
passei a noite a ouvir respirar sem pausas e a arrastar cobertores coloridos, um deles tricotado em dias de tempestade mas com cores de verão.
Andei noite dentro como um farol que não repousa sobre uma maré sua.
Acordo, e ainda penso na existência celeste e no sol perfumando néctares de flores adormecidas e regadas pela humidade da noite fria...tola!

1.12.10

.


nem me tinha apercebido, mas pelos vidros foscos da janela, o dia quase começava naquele momento pardo e de silêncio.
O corpo cansado... ainda parecia noite, deixei-me ficar nesses sossegados movimentos anoitecidos. Só quando inevitavelmente tive de ignorar o descanso, guardei o cansaço na vontade de fazer e estar.
O sol já entra pela casa, essa estrela que ilumina e aquece até ao meio da alma.
Quero ainda hoje sentir o sossego de todas coisas, pô-las nos seus sítios, dar-lhes nomes abstractos, conferir-lhes o pó, lavar o invisível, arrumar o que nem sempre se sabe como sentir, e por fim... talvez saborear, porque voltarei a desarrumar...