28.11.10

As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos


No Teatro-Estúdio Mário Viegas, em Lisboa, decorre a peça de teatro,
"As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos", uma hilariante comédia, tecida com as obras deste grande dramaturgo, uma viagem através das suas comédias, tragédias, peças históricas e até sonetos. Uma forma cativante e talvez diferente de ver e viver o teatro, num ambiente intimista e acolhedor. Nos dias que correm, uma forma de aligeirar o nosso humor, porque rir faz-nos sempre bem!


"...plante o seu jardim e decore a sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E então aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe, depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"
William Shakespeare

24.11.10


juro... hoje quase senti o vento que vem com a neblina, segredar-me ao ouvido. Já o corpo cedia aos passos lentos, e de olhos postos no horizonte deixava o pensamento voar como só um pássaro sabe existir nesse pleno levitar. Fez-me pensar nas tempestades da alma que ficam no corpo, assim como as árvores guardam como sulcos, a fúria dos ventos e das águas que dilaceram.
Não sei se a voz de todos nós, um dia se cala no corpo ferido ou na alma contida, ou em nenhum dos dois. Não importa.
Gosto de pensar que mesmo a paisagem sendo igual, ainda assim, os meus olhos verão de forma diferente e será então sempre diferente, porque nem as sombras são iguais... essas voláteis fiéis a um sol que todos os dias nasce.
Na verdade, não há tempestades que um qualquer céu pudesse denunciar. A alma... é ela própria a tempestade. Sem chuva ou piedade, apenas o silêncio das nuvens densas.
Ah corre, corre e sente o vento no rosto, deixa que a chuva te molhe, e canta!... Porque não? Amanhã não verás assim...

17.11.10

Diário?

"Um Diário não é isto. Diário é o daquele inglês que, para que ninguém o lesse, até uma cifra inventou.
O que eu diria aqui se soubesse escrever em cifra!"

Diário, Miguel Torga

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Digo sempre que um dia as palavras me faltarão e faltam... e por mais cheios, redondos, secos ou alagados que os olhos estejam, falta sempre uma espécie de passaporte para as palavras saírem do coração ou das vísceras, numa fórmula descodificada que às vezes não se descodifica, e fica lá... eu por mim, talvez não me saiba calar, fica sempre um pequeno laivo de luz ou sombra por dizer.
Por vezes nos gestos mudos que a rotina já nos habituou, observo as mãos tão eficientes, e elas talvez nem pensem, mas enquanto faço com elas não paro de pensar. E às vezes surpreendem-se quando o quente queimou, ou o copo partiu-se entre os dedos... assim são as palavras, não se devem distrair, virá sempre alguma coisa que fará doer se não forem soletradas ou esmifradas num papel solto ou numa história inteira.
Também me faltaram, quando o corpo dela se arqueava numa convulsão lenta e profunda que lhe levava a cor dos lábios. Faltava-me a voz ao mesmo ritmo que o coração dela, parecia se perder nos meus dedos junto ao pulso. Termos técnicos? A teoria embalsamada em enciclopédias? Por favor! Só quando a cor lhe retomava aos lábios, e o respirar era o compasso de vida, só aí consegui engolir o coração que sentia na garganta...

10.11.10

felicidade

a tão repensada e falada felicidade...
E nunca houve uma definição que realmente me bastasse para preencher as lacunas que a própria palavra felicidade, nos enche a boca e o coração, só de pronunciá-la.
De tão imensa e abstracta, poderão existir páginas e tratados, que nunca será definida com exactidão, exactamente porque cada um, terá o seu conceito próprio de felicidade e a sua forma muito própria de a viver.
E se para uns, felicidade é atingir um objectivo e mantê-lo vivo, para outros poderá ser um momento, um fugaz momento de um sorriso, de um café quente, da cereja que se derrete em sumo na boca, de um cigarro ao luar, um abraço, um pôr-do-sol com o coração cheio, ver a chuva cair entre as quentes mantas, ou até para outros, será acordar sem dores, ter pão sobre a mesa, ou simplesmente acordar ...
Acredito verdadeiramente que a felicidade está intimamente ligada à infelicidade. Há que, já termos sentido a ferida aberta, para conseguir desfrutar de momentos que nos reconstruam e apaziguem.
E talvez haja um ingrediente inofensivo e essencial na vida que nos permite olhar para além do que simplesmente vemos, e sentir para além do que parece tão pouco e irrisório, será talvez a capacidade de nos deslumbrarmos. Essa capacidade tão viva enquanto crianças, vai-se modificando, também porque a leveza de ser criança, nos permite voar por contos de fadas e castelos a construir.
Mas há que preservar esse calor no peito, esse olhar desmedido como estrelas cadentes, esse gargalhar com o coração e não apenas com a garganta, e simplesmente dar uma hipótese à vida...

7.11.10

sunday


Sunday, por Edward Hooper, 1926

dos dias...

O calendário continua na parede e o que resta são páginas de poucos meses desfilando na parede cheia.
Quando emerge o silêncio da noite, consigo ouvir o cansaço no seu mais arrebatador queixume. Esse cansaço que mora nos dias...
Hoje cheguei a casa, e em frente ao espelho que não baço, me dava a clareza dos olhos, do risco castanho sob o olhar, da ruga à direita sugerindo pontos de exclamação, e há sempre aquela parte que toca os lábios em forma de V depois do nariz, e o canto dos lábios que podem sorrir como o sol.
Tirei os ganchos do cabelo, desmanchando o vislumbre de um possível cacho de uvas colhido há uma semana, nos ondulados rarefeitos. O sonho de um cabelo liso já o tempo levou...
Untei o rosto com as mãos decididas e amaciei as linhas que a vida torna visíveis.
E breve, quero descansar e esquecer que me lembro... e que no espelho me demoro.
Não me assusta os dias ou o calendário, assusta-me se não souber levar o melhor dos dias.

3.11.10

...das memórias

não oiço o piano há uns dias... fechem o palco e deixem as luzes acesas porque eu já não sei brilhar. Ficarei quieta, prometo.
Há um leve, pequeno fervilhar nas costas da casa e as janelas fecham-se por dentro à escuta.
A jarra ainda tem o perfume das flores que lhe prometi. Se não fossem elas, não teria a fotografia tanta cor...
O que mais adoro, os candeeiros baixos e dourados como o sol, aquecem-me tanto o coração, mesmo numa noite fria. E as noites virão caladas e sorrateiras, talvez não dê por nada, mas como uma boca escura e profunda, nos seus abismos cairei, tenho a certeza.
Não haverá senão o doce calor das vozes, sim, esse tamanho aconchego! Ah, e as memórias... já só resta a carta que me escreveste, o papel gasto e as letras já sumidas, uma vergonha dirias tu. Para quê? Não sei. Chega-me saber que ela lá está, e mesmo que já não a consiga ler, saber que a escreveste para mim.