29.10.10

sobre linhas

Enquanto o comboio marcava as horas e minutos em compasso decrescente, até aos destinos que narram retalhos de cada um, estava um viajante alheio a tudo...
Ainda me lembro quando o comboio era apenas um pequeno som longínquo, e um fugaz vulto ao longe, enquanto na varanda me perguntava de seus caminhos, sem querer adivinhar uma qualquer paisagem, pois a própria paisagem era aquele momento em que passava e tornava a ponte que descia junto às árvores, mais viva...
Hoje ia um viajante no comboio, alheio ao tempo que passava e às lágrimas da criança que chorava em silêncio, lágrimas que escorriam sem qualquer esgar de expressão. A língua pequena, saía dos finos lábios, na descoberta mais salgada de uma dor, que eu me perguntava qual ser...
E o viajante continuava alheio, dormente de cansaço, de mãos esquecidas sobre o colo e de olhos postos no horizonte. Alheio às mulheres e homens que partiam. E com os olhos colados na sua própria paisagem...talvez uma paisagem de dor, alegria, ou lágrimas em fúria que descem transparentes de um céu sem sol e tantas vezes que parece um aperto desmesurado nos vasos que alimentam o coração, e sem música e sem cor, o sangue flui lento de emoção.
E há pequenos momentos de silêncio que os homens ousam decifrar, sobre as linhas de um comboio, as paisagens que os dias teimam pintar, ao entardecer.

10 comentários:

  1. "e há pequenos momentos de silêncio que os homens ousam decifrar".
    nesta escalada sísifa, acima do permitido, aguarda-nos o eterno recomeço; ao silêncio, sucede-se a mudez e a afonia...
    um beijinho!

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  2. "aguarda-nos o eterno recomeço"

    que o silêncio se faça voz e melodia para esse recomeçar, se não sempre, talvez todos os dias...
    Beijinho!

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  3. perfeita a subtileza "senão sempre, talvez todos os dias". para humanizarmos esta fragmentação do ser, será que podemos arriscar um "a cada dia". que achas? :)
    um beijinho!

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  4. Andy

    Que nunca, sobre as linhas, se alheie o sentido de olhar mais fundo na indiferença dos dias. Porque as lágrimas terão sempre um sal de dor que se não for sentido, não será lambido na cicatrização das feridas...

    Este texto é de suster a respiração e mergulhar até ao mais fundo que nos habita!

    Parabéns, minha amiga!!

    Beijinhos

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  5. Jorge,
    parece-me muito bem assim.
    um dia de cada vez :-)
    Beijinho amigo!

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  6. Maria João,

    "Que nunca, sobre as linhas, se alheie o sentido de olhar mais fundo na indiferença dos dias. Porque as lágrimas terão sempre um sal de dor que se não for sentido, não será lambido na cicatrização das feridas..."

    belíssima a tua frase!
    e concordo em pleno.

    Obg amiga!
    Beijinho

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  7. Andy
    Belo foto grafia, a preto e branco, com cinzas a deixar rasto de um passado cinzento...

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  8. Miguel :-)!
    Obg pelas tuas palavras coloridas.
    Beijinho

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  9. É sempre um prazer acompanhar-te nas viagens que te suscita o teu olhar envolvente, numa talvez tentativa de decifração dos pequenos dramas e das pequenas alegrias das pessoas, do pulsar da própria vida...

    beijo :)

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  10. AC,
    as tuas palavras fizeram-me recuar no tempo, porque desde bem miuda me lembro de ser assim observadora, discreta mas atenta observadora das pessoas, das suas reacções, expressões e frases. E no presente, o meu dia-a-dia quase que assim o exige.A tentativa de decifrar o pulsar da vida.
    Obg AC :-)!
    Beijinho

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