13.10.10

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Às vezes o cansaço é tanto... quase se limpa o suor com o próprio suor, e não falo só daquele que se desenha na pele, abrindo caminhos de esperança por dias mais serenos, mas também daquele suor que nasce do empenho e de vontades interiores que perseguimos dias a fio, da corrida em ciclo que a vida se torna, das promessas que nos fazemos nem que seja com a voz já rouca e num eco desmesurado de cansaço, vem uma sensação de desalento.
Hoje vi os lábios trémulos de uma mulher, tentando me contar com os olhos perdidos de dor, a razão de em desespero se ter ferido nas mãos, queimando-se com os cigarros que fumava, até sentir uma dor tão forte que calasse talvez a dor da sua alma. Sem conseguir verbalizar razões, só as lágrimas falavam e os gestos mostravam a sua fragilidade... ficámos numa presença inteira de silêncio, e aquele silêncio era a única coisa leve e possível de se dizer naquele momento e respeitei isso. Enquanto as feridas físicas eu podia tratar, as da alma... são um mundo infinito de complexidade. Às vezes bastará ser e estar...

17 comentários:

  1. Andy estou sem palavras e com o coração apertado depois de ler as tuas palavras e ver o video...

    Nem sei que escrever...

    Beijinho grande

    Blue

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  2. Pois é! Estes "testemunhos" fotografados ou radiografados podem ajudar-nos a ter e dar sentido à(s) vida(s).
    Parabéns pela sentimentalidade de uma vivência, bem pintada, a preto e preto...

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  3. admiro a coragem.
    admiro aqueles que lidam diariamente com a mais profunda das dores: a solidão. e vêm cigarros no peito, sangue nos pulsos, serpentes em volta do pescoço, até cair... de vez... irreversivelmente.
    esse silêncio compartilhado talvez seja mesmo o melhor dos placebos...
    um beijinho com admiração, amiga!

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  4. regressei aqui e... no meu comentário, reparei no verbo "ver" conjugado como "vir". ups... aqui vai a rectificação: "vêem" :)
    beijinho!

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  5. Blue, as tuas palavras e presença já disseram muito...
    Beijinho :-)!

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  6. A solidão deve ser muito dificil de tolerar...quantas vezes passamos ao lado de alguém que precisa apenas de uma palavra ou de um sorriso. Muito lindo o video e texto.
    Bjs

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  7. Miguel, são tantas as situações que nos tocam profundamente quando trabalhamos com pessoas, é tudo menos simples, sobretudo quando se encontram numa fase da sua vida de grande fragilidade, como a doença ou a velhice ou outras situações... por vezes não é fácil "desligar", e surgem então estes desabafos, que como dizes, esta partilha pode ser uma forma, ou um despertar para darmos mais valor à vida, e acima de tudo de nos estimarmos, conhecendo os nossos limites, sabendo dizer não, em determinadas situações e conseguindo pedir ajuda noutras.
    Obg Miguel!
    Beijinho

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  8. Jorge, a coragem pode surgir nos momentos mais necessários e por vezes no fim de as enfrentarmos, até nos surpreendemos com a força com que lidámos com a situação. E por vezes a coragem não surge e também fraquejamos. Muitas vezes discutimos entre nós enfermeiros, que os profissionais de saúde também beneficiariam com apoio psicológico para enfrentar determinadas situações vincadas por um sofrimento diário, sobretudo em determinados serviços.
    Obg pelas tuas palavras, Jorge!
    Beijinho

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  9. Sem dúvida Lilá(s), um sorriso ou uma palavra, pode mudar o rumo de um dia triste.
    Obg e beijinho :-)!

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  10. todas as pessoas que sofrem sentem-se sós, mesmo que tenham gente ao lado.É que o sofrimento retira a capacidade de dar pelo(s) outro(s). é tão difícil romper a barreira que separa uns e outros, tanto de um lado ocmo do outro. Tu sabers disso enquanto tratadora -enfermeira, como sabes, muito bem, como te sentes quando a dor, qualquer dor, toma conta de ti, inteira. Eu pelo menos sei-o, e apesar de ter ao meu lado quem me ame e se preocupa comigo, há momentos de total solidão.
    _____________
    Parabéns pelo post, Andy.
    beijo

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  11. Andy

    Hoje, por hoje... apenas me aconchego nas tuas palavras... posso?
    Sabes, é que elas falam de muito do que me doí... e doi tanto!

    Um beijinho de enorme gratidão

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  12. Em@, a dor às vezes torna-nos pouco permeáveis ao exterior e ao outro, seja talvez um mecanismo de protecção que a alma aciona, como uma auto-cura. Acredito que haja momentos de solidão como dizias para procurar respostas e sentidos, escutados num só silêncio interior.
    Obg Em@ :-)
    Beijo!

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  13. Maria João,
    num dia como o de hoje, em que as palavras me custam a escrever e o sol lá fora não aquece as paredes, as tuas palavras foram também puro aconchego.
    Abraço!

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  14. Andy,
    eu não sei se é um mecanismo de autoprotecção da alma para a auto-cura, mas dá-me a sensação que quando a dor é muito forte, atira-nos para um vazio (já falei disto em vários poemas). onde não cabe mais nada senão a dor.os nossos sentidos ficam totalmente embotados...e não estou a falar dos efeitos de qualquer droga/medicamento.:(
    _________
    beijo

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  15. Em@, entendo o que dizes, parece um colete de forças, não químico, nem físico... mas como que uma pausa em todos os nossos "receptores" e "emissores" ... talvez uma espécie de curta hibernação, em que digerimos emoções. Uma certeza, não passamos pelas coisas de forma fria e simplista (às vezes gostaria...).

    Beijo Em@!

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  16. "Enquanto as feridas físicas eu podia tratar, as da alma... são um mundo infinito de complexidade."

    Pois são, Andy, mas nestas alturas o que se necessita é que alguém esteja. A complexidade gosta de coisas destas para se amparar...
    O texto tocou-me fundo.

    Beijo :)

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  17. AC, obg pela tua presença sempre tão reconfortante.
    Obg! :-)beijinho

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