30.10.10



"... Escondia-me nas árvores e esperava que amanhecesse. O surdo voo das aves noctívagas atordoava-me, roçava-me na pele, e eu caía num torpor que só com o despontar da alba se desvanecia..."

Al Berto
Lunário

29.10.10

sobre linhas

Enquanto o comboio marcava as horas e minutos em compasso decrescente, até aos destinos que narram retalhos de cada um, estava um viajante alheio a tudo...
Ainda me lembro quando o comboio era apenas um pequeno som longínquo, e um fugaz vulto ao longe, enquanto na varanda me perguntava de seus caminhos, sem querer adivinhar uma qualquer paisagem, pois a própria paisagem era aquele momento em que passava e tornava a ponte que descia junto às árvores, mais viva...
Hoje ia um viajante no comboio, alheio ao tempo que passava e às lágrimas da criança que chorava em silêncio, lágrimas que escorriam sem qualquer esgar de expressão. A língua pequena, saía dos finos lábios, na descoberta mais salgada de uma dor, que eu me perguntava qual ser...
E o viajante continuava alheio, dormente de cansaço, de mãos esquecidas sobre o colo e de olhos postos no horizonte. Alheio às mulheres e homens que partiam. E com os olhos colados na sua própria paisagem...talvez uma paisagem de dor, alegria, ou lágrimas em fúria que descem transparentes de um céu sem sol e tantas vezes que parece um aperto desmesurado nos vasos que alimentam o coração, e sem música e sem cor, o sangue flui lento de emoção.
E há pequenos momentos de silêncio que os homens ousam decifrar, sobre as linhas de um comboio, as paisagens que os dias teimam pintar, ao entardecer.

25.10.10

viagem

Foi feita uma técnica de imaginação guiada, com voz e música como pano de fundo numa viagem por uma floresta, em resgate de um livro com o nosso poema lá dentro... posteriormente ao momento de relaxamento e visualização, tentar passar para o papel em 15 minutos as sensações vividas e por fim pintar algumas imagens flash visualizadas.
o resultado possível foi este...

as folhas caídas
soltas emaranhadas a meus pés
castanhas
amarelas
a terra molhada e o perfume tão cheio
o som das folhas pisadas
e como me sinto tão bem
querer perdurar um momento
um pequeno símbolo
uma flor
árvores vazias de ninhos
porque ouvia o silêncio
quis sentir a porta
mas parecia de ferro negro e frio
toquei levemente
imaginei luz
mas vi o tom escuro
a toldar os livros
só tomaram forma
porque os senti na minha mão.



24.10.10

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Quero acrescentar ao último post, que a arte enquanto ferramenta, possível de ser experienciada por todos nós, tem uma acção catalisadora e importante, no caminho para um maior conhecimento de si próprio, assim como para a cura, no entanto, não terá, nem tem que ter, o valor artístico no sentido mais lato da palavra. Tem o valor de cada um de nós, que nela pomos toda a sensibilidade criativa, sensorial e afectiva, de toda uma vida.
A arte não é lançada ao acaso, é feita uma fundamentação e estruturação muito séria, realizada pelos arte-terapeutas inseridos numa equipa multidisciplinar, para que a arte seja realmente fonte de terapia e bem-estar.
Dr. Ruy de Carvalho é o mestre ad teoria da Arte-Terapia Integrada, é psiquiatra e Vice-Presidente da SPAT e Vice-Presidente da Sociedade Internacional de Psicopatologia na Expressão e Arte-Terapia.

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ARTE-TERAPIA
Hoje estive presente numa “viagem” muito enriquecedora que gostaria de partilhar, não sei se da melhor forma, porque as palavras me têm faltado, mas ainda assim, e porque sinto esta experiência como uma verdade enorme, como ser humano acima de tudo, e por último como profissional. E digo, acima de tudo como ser humano, porque para defendermos a verdade de algo, temos de a sentir na pele , como uma vivência absoluta e verdadeira. Desde sempre que a arte é para mim, um refúgio e um encontro com as minhas próprias palavras mais silenciadas, um momento em que solto as “amarras” e “grito” ou canto...
Digamos que passar pela vida na superficialidade dos dias, não nos é suficiente, não nos chega, e talvez a possibilidade de ir até ao cerne de todas as coisas, nos traga algum colorido e alguma clarividência, aos dias e às sensações a preto e branco.
Hoje estive no XI Congresso Português de Arte Terapia – Artes Integradas em Terapia e Educação, realizado pela Sociedade Portuguesa de Arte – Terapia (SPAT). Talvez já muitas pessoas conhecerão esta sociedade e a sua forma de intervenção, para mim foi a primeira experiência.
Este congresso assenta sobretudo na partilha de vários projectos realizados por diversos profissionais nas mais vastíssimas áreas, desde educadores, professores, psicólogos, médicos, enfermeiros, etc. Para além da sua formação de base, são arte-terapeutas, e têm a arte como mediador de intervenção para a terapia e a educação.
A arte enquanto terapia e vista do ponto de vista holístico, com o acreditar de que todo o ser humano tem em si a a capacidade de criar, expressar-se e comunicar recorrendo a uma das possibilidades: artes visuais, drama, desenho, pintura, escrita, poesia, música, canto, tabuleiros de areia, escrita na pintura...
Os testemunhos dos profissionais foram muito eloquentes, na medida em que foram reais e lhes passaram pelas mãos e coração.
Estive e estarei de novo amanhã, receptiva a me deslumbrar, com a capacidade desconcertante que é a terapia pela arte.

20.10.10

Escrevi estas singelas palavras ontem para a Em@ (desafio), encontrei por acaso esta música e vídeo. Hoje sem conseguir escrever deixo-vos a melancolia de Lhasa...



olho pela janela de ladrilhos e cores
trago hoje em mim o céu que dela desponta
meus olhos rasos de sorrisos
e num rasgo de comoção
escrevo os segredos das nuvens
que tecem palavras
debruadas a fio
preto e branco
onde mora o coração...

17.10.10

lantejoulas



prometi um acordar com a memória das estrelas
na sombra do lençol e na dobra da noite
a esperança de um corpo leve de cansaço
o silêncio rarefeito nas imagens
de passos e sabrinas
o disco de vinil sorrisos leves como tule
e as memórias de infãncia
fitas de lantejoulas para recordar

pensei pousar as mãos sobre a janela
e romper o horizonte
até às árvores da avenida
prometi-me ao dia
porque ao sol as promessas têm mais brilho
e o que fica no papel são rasgos de alegria
como o som de um riacho solto
e desenfreado entre pedras seculares
que escrevem uma história
a minha.

13.10.10


Zbigniew Preisner - Blue with Desire

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Às vezes o cansaço é tanto... quase se limpa o suor com o próprio suor, e não falo só daquele que se desenha na pele, abrindo caminhos de esperança por dias mais serenos, mas também daquele suor que nasce do empenho e de vontades interiores que perseguimos dias a fio, da corrida em ciclo que a vida se torna, das promessas que nos fazemos nem que seja com a voz já rouca e num eco desmesurado de cansaço, vem uma sensação de desalento.
Hoje vi os lábios trémulos de uma mulher, tentando me contar com os olhos perdidos de dor, a razão de em desespero se ter ferido nas mãos, queimando-se com os cigarros que fumava, até sentir uma dor tão forte que calasse talvez a dor da sua alma. Sem conseguir verbalizar razões, só as lágrimas falavam e os gestos mostravam a sua fragilidade... ficámos numa presença inteira de silêncio, e aquele silêncio era a única coisa leve e possível de se dizer naquele momento e respeitei isso. Enquanto as feridas físicas eu podia tratar, as da alma... são um mundo infinito de complexidade. Às vezes bastará ser e estar...

12.10.10

Georgia O'Keeffe


Large Dark Red Leaves on White, por Georgia O'Keeffe, 1925
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As suas telas de paisagens e flores foram muito apreciadas a partir de 1928. Georgia é considerada uma das pintoras norte-americanas de maior sucesso do século XX.

10.10.10

o piano

São agora 2h da manhã, hoje é dia 10.10.10
Mais um post fora de horas porque só quando a noite vai alta é que se sente o sossego respirar profundamente nesta casa.
No prédio onde moro há um pianista, nunca o vi, mas sei que existe. São tantas as vezes que enquanto subo as escadas até o patamar do meu andar, oiço o piano tocar breve e longínquo, talvez num 4º ou 5º andar, um mistério a desvendar.
Aquele momento em que me vejo de olhos fechados a sentir a música no patamar das escadas, é o que medeia todo um dia de trabalho, para a passagem de tudo o que implica uma casa com três filhos.
Fico ali por instantes a saborear um breve momento... a encontrar forças vasculhadas num corpo exausto, a levar música no coração porque nem sempre os dias nos enchem de coisas maravilhosas.
Lá fora chove incessantemente, preferia o embalo de um piano, ainda que breve...
As crianças dormem e estão bem e isso é a maior tranquilidade que posso ter. Os gémeos não têm um sono tranquilo...
E se há momentos difíceis, árduos, de ficar sem forças, de olhar para o céu num desalento, outros há de um profundo agradecimento, de uma imensa paz e completude.
E amanhã será sempre melhor...

6.10.10

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Gostei do filme. Adorei a parte de Itália, as comidas, as ruas, a língua. Na Índia a parte de introspecção. Gostei muito das paisagens de Bali, e o derradeiro final. Baseado no best-seller autobiográfico de Elizabeth Gilbert, Comer, Orar, Amar, um filme para descontrair, reflectir e viajar.

5.10.10

selo da Em@



A Em@ ofereceu este lindo selo a todos, pelos seus 200 seguidores e eu trouxe-o para aqui. Parabéns!
Sem estar propriamente relacionado propos-me também um
desafio :-/ ...e a verdade é que estes meus pezinhos deram hoje uma verdadeira caminhada e trouxeram de lá estas flores.
E no Dia da República mostro os meus pés e flores em plena blogosfera. A responsável é a Em@! :-) hihi

Boa noite a todos!

3.10.10

as vidraças estão lívidas de água que escorre ao longo do dia, a casa está com pouca luz e a que entra pelo terraço, não chega a iluminar o interior da casa porque chega mortiça... já acendi as luzes quentes que enganam a noite e fazem-na chegar com suavidade.
Não tenho escrito nada... para além das coisas normais que não teriam lugar para aqui contar, tenho a noção plena que na falta de tempo, há por vezes uma preguiça latente nas palavras que teimam em não se desdobrar de um papel fechado.
Ponho-me a pensar, o que fará soltar as palavras em fio... um golpe de tristeza? Uma revoada de alegria? Ou a passividade dos dias?
Entendo que não será nem uma coisa nem outra, mas sobretudo como cada coisa nos esventre os sentidos e faça falar o mais recôndito de nós.
A tranquilidade é um bálsamo para as palavras fluírem num rio sem margens.