26.9.10

clube ferroviário



A sede do Clube Ferroviário Português, que desde a década de 60 existe, promovendo diversas actividades culturais e também desportivas.
Desde Junho do corrente ano, deu vida ao extenso terraço que era então, apenas um sítio de arrumos para ser agora um Bar.Terraço de olhos postos no rio Tejo em Santa Apolónia.
Ao final do dia, à noite ou de madrugada, o bar convida ao conforto e a uma vista desafogada, cheio de sofás confortáveis, alguns verdadeiros assentos de comboio, com mantas ao dispor, mesas ao estilo vintage, um palco, e até relvado artificial para poder desfrutar confortavelmente da vista infinita para o rio.
Este clube dispõe ainda de duas salas interiores com uma decoração marcadamente anos 60s/70s, uma delas discoteca. Onde têm lugar uma multiplicidade de eventos culturais, bailes ou festas criativas.

Rua de Santa Apolónia, 59, tel. 218 153 196, às qua., das 17.00 às 02.00, às qui. e sex., das 17.00 às 04.00, aos sáb., das 12.00 às 04.00, e aos dom., das 12.00 às 00.00

um final de domingo

as tardes de domingo... e a imagem de uma cadeira de madeira tosca, balouçando no chão silencioso pelas horas e minutos que se rendem a um final de dia.
Uma chávena antiga, a fumegar essências de sementes de cacau e funcho com casca de canela.
Livros que ficam por ler, a mesa composta de tecidos, a flor que ainda sobrevive...
e respira-se o repouso da noite.

23.9.10


fio de água
percorres as madrugadas
desses outonos sem mágoa

queira eu cantar
à porta do dia já acordado
sem apenas gritar
deixar meu coração embalado

21.9.10


Já me esquecia de um pequeno momento como este... talvez me faltem palavras, porque no instante em que as sinto, já partiram em formas e sensações, deixando de ser parte da voz ou até minhas... pequenos pássaros leves sob um arco-íris.
E sublimadas ficam, como que numa tela de aguarela tão suave que se esfumaçam diante dos olhos húmidos e só a memória da pele as guarda.
Mas chega, chega de apoiar a cabeça densa de pensamentos e só depois perceber já com os cotovelos gastos, que a vida não tem de ser sempre difícil. Que a voz não tem sempre de cantar no limiar de um violino e que os céus até se podem abrir em rebentos dias de sol num céu de nuvens que chove.
Suspirarei então morta de alívio, colhendo as flores azuis ou vermelhas que o dia me segredar.
Resta-me o sorriso que dá cor ao coração, e de mãos e braços abertos me deslumbrar em paz, saudando tudo isto...
Não terei que voar, mas levitar estará sempre á mão de uma emoção, de um olhar, de uma canção ou palavra...

16.9.10


"até logo
e o eco de súbitas janelas fechadas com estrondo
rompeu em brasa no que ainda restava da
minha pele verdadeira"


Alice Vieira

15.9.10

sussurros de outono


E o verão parece entrar no outono, como se fosse um doce líquido sobre a dura melancolia...
Os dias já densos e pequenos que nem um esticar de mão suplicante, os faz esperar no horizonte.
Trago o outono nos olhos e ele até poderá ser doce... mas confesso, não gosto de vento nas árvores nem de tempestades.
Talvez me recolha em dias harmoniosos, que as paredes contem histórias de vozes, risos e sabores.
Talvez deixe engordar o corpo e a alma ao compasso dos dias recatados e sombrios, com os bolos caseiros que tentarei aperfeiçoar.
Enquanto isso e parecendo-nos o céu mais baixo, talvez ele nos fale ao ouvido dos arvoredos que se despem em tapetes derramados pelas ruas, do sol que se brilhar, será de um dourado que perdura no espelho de cada folha caída e na terra que húmida, tomará conta de nós, e com o peito cheio de ar sopraremos a sete ventos, que não nos apagaremos num simples dia pequeno...

14.9.10

comer orar amar - "Better Days" de EddieVedder

Se calhar porque tive o livro em mãos “comer, orar e amar” de Elizabeth Gilbert, estou desejosa que este filme estreie, é já dia 30 de Setembro, pelo que pesquisei.
A juntar ao facto de Julia Roberts interpretar a personagem principal, uma história real de alguém que abdica de uma vida “aparentemente estável” e se entrega a um ano de viagens que passa por Itália, Índia e Indonésia. As descobertas pessoais num cenário de culturas diferentes são o mote para um filme descontraído e bem disposto, julgo.
Não agradará a todos é certo, mas vão lá ver também! :-)
Enquanto isso, ficam as imagens e a música Better Days, a qual faz parte da banda sonora.

13.9.10

vento


Há um silêncio
que se demora pela noite dentro
dei-me três tempos
mas nada faz calar esse aguçado
vento mudo

8.9.10

borboleta

Uma borboleta nas pétalas de uma flor foi a tatuagem que por mim passou ao fim do dia, a mesma que logo de manhã pousou nos meus olhos.
O céu já morto de nuvens, a descansar dourado no horizonte, as memórias de um sol que brilhou.
Um ténue cheiro a terra molhada e flores campestres a mascarar com o cheiro agri e não doce das linhas férreas onde o comboio passou.
O homem vestido de negro, óculos escuros, rosto pálido de uma brancura que se estendia pela calvície que ostentava perfeita pela estação que se fez silêncio.
Nem livro, nem palavras desgarradas ao vento, só a música a arder os ouvidos para além do limite... uma sensação de borboleta maléfica por entre as paisagens negras de uma cidade a anoitecer.

6.9.10

noite


de olhos caídos sobre a folha branca, sem palavra ou ponto de exclamação por dizer ou declamar...
pois que a noite é um corredor prateado com laivos negros e assim que lhe ponho o pé há logo um recuo de algo por dizer, mas no fundo não há sal que se exprima tão bem como no mar.
E acredito que estas prosas que nada têm... se igualem a um qualquer esgar, a um corpo que se verga, ou até ao fogo longínquo que o pôr-do-sol promete mas sem querer se esbate na linha do horizonte fria e compulsivamente.
Há para mim um descanso nas palavras onde adormeço o tremor da voz ou os passos inseguros.
Riu-me e choro-me no ritmo do lápis a percorrer os labirintos de um dos tantos papéis que sinto dentro de mim.
Mas tranquilizem-se, será apenas o momento em que me fecho nas paredes côncavas do coração e ali fico.
Como se fosse o último cigarro da noite, se fumasse...

4.9.10

Deolinda


hoje no jardim com os miúdos, olhava-os de volta do bebedouro, saciavam a sede, riam, molhavam-se, depois já pouco bebiam, e só se molhavam, e riam mais, os cabelos molhados, parte da roupa molhada e riam mais ainda. Eu também me ria só de olhar, e muito provavelmente quem me visse, fortes críticas teciam, indagando “...que mãe aquela” e se deixasse mais, sei bem como terminaria a festa da água...

Ah, se pudesse se calhar fazia o mesmo!

3.9.10

lavei os braços até ao cotovelo, fechei a porta ao dia, alisei a mecha do cabelo para sempre despenteado, e pus-me na rua como num grito calado de liberdade que só as ruas pressentiram.
Enquanto esperava o comboio, sentia a crescente descompressão do dia. Entrei, escolhi o meu lugar e sentei-me com saudades do livro que leio, tirei-o sofregamente da mala, na esperança de um momento quieto... mas breve, um casal repetitivo, nas suas expressões sonoras e em cascata de palavras infectaram o tal momento... e um barulho surgia rítmico de um qualquer objecto que o carlos alberto (fixei o nome que ela repetia drasticamente) insistia em manusear, quase com uma felicidade inexplicável, diria quase, com uma loucura própria.
No silêncio por mim ansiado consegui ler minutos escassos do livro.
Saí do comboio e logo senti o vento fresco bafejado pela serra de Sintra, em breve será outono.
Pensei. É bom sentir as estações passarem por mim. Que também o tempo tem dias e os dias têm cores, perfumes e emoções. É bom sentir a eloquência do verão, a melancolia do outono... é bom sentir o relógio das estações à flor da pele.
.

Deito-me ao comprido no tempo
Oiço os silêncios que me acordam
Sou um todo cansado
Haverá ruas que de mim se lembram?