27.8.10

não eram nem horas para o sol ainda estar daquele jeito, o dia finalmente diluía-se nas ruas, andei até o pensamento escorrer solto sobre a quietude do momento, deixei de pensar para sentir as dores que ardiam as pernas e me faziam abrandar.
Refugiei-me na Maittè, e perdi-me por lá, nesse momento já o tinha estrafegado e levava-o por arrasto como se não fizesse parte de mim...
eu e o pensamento perseguíamos depois o sol, mais aliviados das dores.
Inevitável pensar nas mãos da D.L. foram toda a vida mãos de trabalho, que madrugadas as endureceu. Em tempos vendedora ambulante, perseguia os dias em busca de alguma segurança, dizia-me: as pessoas tinham muita confiança no que vendia, era muito respeitada, hoje não me lembro da voz do meu filho e tão pouco o nome do meu neto.
As dores e as mãos deformadas torturam-lhe e ocupam os dias, o pensamento e o corpo...
Olhe para mim hoje, pintaram-nas de vermelho... disse-me mostrando as unhas num tom desolado. Não gosta D.L.? perguntei, porque não disse a quem lhe pintou? Respostas que apenas um olhar, lido com atenção, consegue responder com toda a veracidade.
Desde que está no lar, nunca mais vira o seu filho, assim como tantos idosos que não vêem os seus familiares. Deixaram de se interessar pelo dia e pela noite porque lhes é mais fácil assim, não sentir as horas, nem o tempo árido de afectos.
A cor vermelha nas suas mãos não lhe fazia sentido, não lhe pertencia tamanho festim, nunca teria pintado, nunca talvez teria gostado...
O pensamento outra vez parte de mim, escorria denso e a caminhada não tinha infinito, tinha paragem, destino certo e sol.

8 comentários:

  1. Um manancial inesgotável de vivências, humanas(?), que ajudam a reescrever a realidade e a testemunhar a sorte de ainda não termos sofrido...

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  2. "Desde que está no lar, nunca mais vira o seu filho, assim como tantos idosos que não vêem os seus familiares. Deixaram de se interessar pelo dia e pela noite porque lhes é mais fácil assim, não sentir as horas, nem o tempo árido de afectos."

    Para onde fugiu a dignidade, esse palavrão que não consta das estatísticas?

    beijo :)

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  3. verdade Miguel, uma realidade na maioria dos casos difícil de reescrever de forma diferente.
    Alguns idosos mesmo antes de entrarem num lar, já sofreram abandono por parte das suas famílias, outros não têm família até, e o lar acaba por ser um porto de abrigo não tão amargo, como a realidade que naquele momento de crise viviam sós e abandonados.
    Estou a me lembrar de uma senhora que deu recentemente entrada, sofria maus tratos constantes por parte da família e estar ali no lar tem sido uma "benção", verbalizado por ela.
    Cada caso é um caso, há também famílias que continuam atentas e dedicadas ao idoso mesmo ele estando no lar e outras há que fazem um corte brutal e inexplicavél aos nossos olhos.
    A Em@ em tempos postou um vídeo que acabei de rever, tenho a certeza que ela não se importará que o refira aqui, relacionado com o idoso, a tolerância e dedicação que nem sempre existe, http://www.youtube.com/watch?v=uXxcVvBINCQ&feature=player_embedded#!, julgo ser este o endereço (dêem-me um desconto se não fôr)
    beijinho Miguel!

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  4. realmente deveria ser um direito e é! A dignidade da Pessoa deveria estar garantida em todas as fases da vida.
    A dignidade do corpo, essa muitas vezes mais fácil de garantir, do que a dignidade/necessidade das suas raízes, o ponto de ligação com a sua vida e trajecto de vida, e porque somos seres de afecto, possivelmente a vida só fará sentido enquanto temos a imagem e toque daqueles que tanto amamos, por exemplo dos filhos. Não haverá uma explicação aos nossos olhos para o esquecimento dos idosos por parte das suas famílias, no entanto aprendi a não julgar ou criticar, por isso as minhas questões silenciam-se num grito sem eco.
    Resta-nos respeitá-los, acarinhá-los e dar-lhes a autonomia que ainda lhes é possível, enquanto estão no lar.
    beijinho AC!

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  5. Andy,
    O último post do Interioridades é um conto que aborda esta temática. Se quiser espreitar...

    Beijo :)

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  6. Esta é uma das situações que + me afligie...o abandono dos nossos mais velhos....como é possível?
    como será connosco se lá chegarmos? apesar de temos educado os nossos filhos no respeito pelos que os antecederam?_______________________
    beijo

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  7. Em@, sem dúvida questões que nos preocupam e para as quais não encontramos de facto respostas.
    são tantas as vezes que nos debruçamos sobre esta temática... é um problema muito complexo que não se extingue numa resposta ou motivo, talvez um conjunto de circunstâncias levaram as pessoas a agir de determinada forma. Tentar cativar/incentivar os familiares a manter um contacto regular aos seus idosos nem sempre resulta. É muito difícil aceitar por vezes as reacções das pessoas mas de facto tenho de fazer esse exercicio interior. Acredito ou quero acreditar que talvez não seja de ânimo leve que as coisas aconteçam...e que também elas precisariam de ajuda, acredito profundamente nisto, a nossa sociedade vive numa tensão brutal, o dia-a-dia é duro e as pessoas vivem cada vez mais voltadas para si, sem saberem como dar a volta às suas vidas, umas por desleixo, mas acredito que a maioria por problemas psicossociais consistentes. Apesar de tudo sabendo que não seria motivo...
    Enfim Em@, não sei...
    beijinho grande!

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