7.8.10

Ando nisto há uns dias... não sei precisar, mas sei que há uns dias certos, tão certos como o amanhecer melancólico que o dia de ontem acordou, tão certos como o anoitecer que mais calmo se tornou.
É confuso... mas o silêncio vive a cada esquina de alguns dias, não o silêncio da voz mas o silêncio das palavras que secam mesmo antes da tinta molhar o papel. Talvez uma amnésia ou preguiça.
Ando numa desorganização exterior, na tentativa absurda de organizar cada pedaço à minha volta, entretanto é tamanha a des/reorganização que bloqueia qualquer fio de pensamento ou palavra.
Inexplicávelmente deixo-me embalar nesse silêncio e desenho enquanto isso, umas quantas palavras esfarrapadas nos cantos quase calmos da casa.
Os dias de aparente descanso estão a terminar e em breve voltam os dias de imenso trabalho. E a pensar nisso, agarro-me aos papéis e deixo-me escrever. Nem sempre gostei de escrever. Tenho na memória o meu primeiro professor de português, o temor mais conhecido em todo o colégio, as dores de estômago de qualquer aluno. As mãos trémulas e a boca seca com o coração a saltar quase porta fora, audível em toda a sala, assim eram as aulas do Prof. Góis que por cima dos seus meios óculos olhava-nos com o mais frio e cortante dos olhares, folheava a caderneta com o nome dos alunos que aleatoriamente chamava ao quadro, e como se de uma arma se tratasse, era aquela caderneta a primeira coisa que saía da sua mala a esvoaçar no ar com grande orgulho. Sem sombra de exagero, ao mais pequeno falatório, o professor erguia a cabeça com os óculos ao mesmo tempo e com a face quase a explodir de vermelho, dizia palavras intensas e esbaforidas, que depois nem mais um insecto se voltava a ouvir em tamanha sala. Na altura lembro-me de já ser tímida, e ir ao quadro sobretudo naquelas circunstâncias, era uma sensação repentina de palidez, como se me parasse a corrente sanguínea e apenas um fio de mim se arrastasse desde a cadeira até ao quadro.
Passados uns anos recordávamos aquelas aulas com fortes gargalhadas e com um grande desconto devido à idade já muito avançada do professor.
Felizmente existiam as escadas que davam para a sala de música, as escadas onde menos subiam e desciam pessoas. As escadas dos desabafos, das lágrimas e das gargalhadas, tudo ali acontecia. Umas escadas em mármore em que aguardávamos sentados que a sala de música se abrisse com a Irmã Benilde a nos abrir a porta. Por mais que tentássemos, ali o silêncio era impossível, quanto mais nos concentrávamos, assim mais uma gargalhada se escapava sonora das nossas bocas e olhos e tudo. A Irmã cheia de boa vontade enchia-nos as aulas de xilofones, pandeiretas e flautas. Posteriormente passou a fazer parte das aulas de música o maestro Victor Costa que nos colocou a cantar. Cada vez que o maestro fazia parte das aulas, os nossos olhos e os da Irmã Benilde brilhavam de felicidade, formámos um coro infantil consistente que nos fazia cantar e dançar até nos intervalos... e em festas dos finais de período, mais tarde mesmo em cerimónias para o exterior.
Guardo tantas saudades desse tempo. Sobretudo das escadas... com o tempo, todos nós acabamos por adoptar lugares e momentos para descomprimir.
Escrever e recordar, acaba sempre por ser um desses momentos, entre outros...

8 comentários:

  1. Andy,
    Não tenho conseguido escrever... porquê? Não sei.
    Bjnhs

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  2. Passando pra te desejar um ótimo final de semana de luz e paz



    Hugo

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  3. didium,
    melhores dias virão :-)
    beijinhos!

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  4. HSLO,
    mto obg, desejando o dobro para ti!

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  5. silêncios... de tinta, ou a máquina do tempo, querida amiga andy. e ao som de uma das mais belas composições dos muse, a nostalgia ganha os contornos do arrepio na pele...
    um beijinho e... desfruta do que ainda resta de descanso; há tempo para pensar no trabalho :)
    um beijinho!

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  6. olhar para trás ainda que com um sorriso, traz sempre uma nostalgia com o tempo...
    a música é linda.
    tens razão, mesmo que restem apenas horas vale sempre a pena desfrutar :-)
    beijinho!

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  7. Andy
    Vi o filme que realizaste de um tempo...
    E por causa das escadas (sou Arquitecto e também subi muiiiiitas escadas, no seminário) e porque gostas de poesia, lembrei-me de te dar a conhecer ou lembrar-te, um poema lindo (só?) do David Mourão Ferreira e aí vai:

    ESCADA SEM CORRIMÃO

    É uma escada em caracol
    E que não tem corrimão.
    Vai a caminho do Sol
    Mas nunca passa do chão.

    Os degraus, quanto mais altos,
    Mais estragados estão,
    Nem sustos nem sobressaltos
    servem sequer de lição.

    Quem tem medo não a sobe
    Quem tem sonhos também não.
    Há quem chegue a deitar fora
    O lastro do coração.

    Sobe-se numa corrida.
    Corre-se p'rigos em vão.
    Adivinhaste: é a vida
    A escada sem corrimão.

    David Mourão Ferreira

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  8. Miguel,
    é lindíssimo o poema, não conhecia! E se faz tanto sentido...a vida, uma escada sem corrimão.
    Obg! beijinho.

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