22.8.10

acontece tantas vezes pegar no lápis e segurá-lo com a firmeza de quem vai escrever, como se tivesse a convicção inocente que este acto por si próprio, fosse suficiente para desencadear a escrita do que realmente quero dizer, mas não o é, claro! Apesar de tudo, faz-me bem fazê-lo...
às vezes de volta do papel, com o pensamento a divagar e a tomar outras formas de expressão, quanto mais não seja o silêncio, talvez mais difícil de gerir, do que se conseguisse talvez escrever ou desenhar.
Desenhar, cada vez mais escasso e sem sentido nos dedos que se esbatem sobre o próprio carvão.

As crianças expressam-se muito através do desenho. Lembro-me de alguns dos meus na altura, sobretudo, o céu de nuvens azuis sobre a casa de duas janelas a traço vermelho, a pequena estrada e as flores... o quanto repetia vezes sem conta este desenho! As pessoas de mãos grandes e dedos longos, desproporcionais ao corpo, agora nem me atrevo desenhá-las.
Na adolescência, o abstracto. Padrões enigmáticos, talvez a confusão sentida ou a tentativa de decifrar a vida, não ela menos abstracta.
E talvez este sentir pelo desenho o deva à minha avó. Tenho tanta pena de nunca a ter visto pintar com as suas mãos de coragem.
Os seus gestos são memórias de que tantas vezes me socorro.
Guardo a imagem da sala de veludo carmim, com paredes baças envelhecidas pelo tempo, o brilho de um quadro com uma rapariga de chapéu, numa charrete puxada por um cavalo branco e uma envolvência verde...

5 comentários:

  1. Pois! Os nossos olhos são janelas por onde nos entra o mundo e se grava numa parte do cérebro, depois é só abrir a "pasta" e publicar. Só que a gravação precisa de um suporte, que é o conceito do que "vimos" e reproduzimos. Conforme o conceito vai sendo enriquecido, o "visto" vai sendo actualizado e (re)reproduzido. Por isso é que o desenho infantil é do tamanho dos conceitos nessa idade e as casas têm parede, telhado, janela e porta e chega...

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  2. muito verdade quando falas do que vimos,a forma como assimilamos e depois reproduzimos, sem dúvida o olhar de criança vê na simplicidade embora para ela haja sempe uma história envolvida ou uma emoção que transmite pelo traço e composição do desenho. assim como qualquer desenho ou forma de expressão pela vida fora...
    beijinho Miguel!

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  3. Aiii, Miguel, eu estou toda virada ao contrário! :( entrei numa de naif...

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  4. Ema
    Os teus conceitos é que estão a "sofrer" uma simplificação racional, que te permitem recriar os conceitos. Em qualquer altura voltas(?) ao passo anterior. Por aí vai o abstracto...

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  5. Em@ e Miguel, gosto de vos ver falar aqui :-)

    não haverá um tempo de espera entre o momento como se sente, e aquele em que as palavras finalmente desabrocham nos lábios, e o traço finalmente renasce dos dedos como num fulgor de lua cheia?

    beijinhos aos dois!

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