30.8.10


Se na sombra dos aromas verdes
folhas quentes
adornassem a minha pele
tocaria no céu
para sempre no meu coração
seriam ramos de sol
a noite caiu finalmente... doce sossego!
Hoje as palavras têm o sabor a bolo de limão e canela.
Não ficou perfeito, reconheço... raios parta os limões traiçoeiros!
O momento especial de ilusória felicidade, esse ninguém mo tirou. Quando se começa a sentir o cheiro a crescer pela casa e que culmina com a retirada do bolo do forno e os olhos a brilhar de apreensão. Tudo é perfeito até o momento de o partir, depois... uma carta fechada.
Os doces são uma verdadeira fraqueza, a certeza da minha verdadeira fragilidade.
Isabel Allende, refere em Afrodite que “As sobremesas são para a mesa o que os concertos barrocos são para a música: uma arte delicada”. Concordo. Digamos que sou uma verdadeira apreciadora de arte.
Este fim-de-semana cometi mais um dos meus pecados terrestres, comprei dois passarinhos e escolhi a mais bela gaiola, coloquei-a junto à janela da cozinha, no recanto mais perfeito. Estiveram todo o dia felizes, já dormem e de qualquer maneira estavam presos na loja...
Da janela, a avenida está calma, corre um vento suave e morno, o céu está estrelado. A janela do prédio em frente já está acesa, a mesma luz que não se apaga e perdura toda a noite, sejam que horas eu me levante.

28.8.10


...

"É nesse abraço que eu descanso

Esse espaço que me sossega

E quando possas dá-me outro abraço

Só um não chega"
...

Miguel Gameiro
"Dá-me um abraço"

27.8.10

não eram nem horas para o sol ainda estar daquele jeito, o dia finalmente diluía-se nas ruas, andei até o pensamento escorrer solto sobre a quietude do momento, deixei de pensar para sentir as dores que ardiam as pernas e me faziam abrandar.
Refugiei-me na Maittè, e perdi-me por lá, nesse momento já o tinha estrafegado e levava-o por arrasto como se não fizesse parte de mim...
eu e o pensamento perseguíamos depois o sol, mais aliviados das dores.
Inevitável pensar nas mãos da D.L. foram toda a vida mãos de trabalho, que madrugadas as endureceu. Em tempos vendedora ambulante, perseguia os dias em busca de alguma segurança, dizia-me: as pessoas tinham muita confiança no que vendia, era muito respeitada, hoje não me lembro da voz do meu filho e tão pouco o nome do meu neto.
As dores e as mãos deformadas torturam-lhe e ocupam os dias, o pensamento e o corpo...
Olhe para mim hoje, pintaram-nas de vermelho... disse-me mostrando as unhas num tom desolado. Não gosta D.L.? perguntei, porque não disse a quem lhe pintou? Respostas que apenas um olhar, lido com atenção, consegue responder com toda a veracidade.
Desde que está no lar, nunca mais vira o seu filho, assim como tantos idosos que não vêem os seus familiares. Deixaram de se interessar pelo dia e pela noite porque lhes é mais fácil assim, não sentir as horas, nem o tempo árido de afectos.
A cor vermelha nas suas mãos não lhe fazia sentido, não lhe pertencia tamanho festim, nunca teria pintado, nunca talvez teria gostado...
O pensamento outra vez parte de mim, escorria denso e a caminhada não tinha infinito, tinha paragem, destino certo e sol.

24.8.10

flor

selo


Recebi do poeta e amigo Jorge Pimenta, autor do viagens de luz e sombra, este selo, o qual desde já agradeço muito, e que vem incumbido de 3 regras:
  • lançar o selo no blogue
  • referir 9 coisas sobre mim
  • indicar 9 blogues a quem ofereço

O selo está lançado!

falar 9 coisas sobre mim... não sei se terei assim tanto por dizer ou até se caberei nesse número de coisas, mas vou tentar...

  • gosto de ar livre e sol, verde e mar, terra e cheiro a terra molhada
  • não gosto de perder tempo em cafés, prefiro passear
  • gosto de dançar, sobretudo adoro ver dançar
  • sou discreta e ninguém dá por mim
  • gostava de acreditar mais em mim
  • gostava de ter mais tempo
  • tenho olhos castanhos
  • não vivo sem música
  • adoro o sorriso das crianças

os nove blogues de forma completamente arbitraria

  • Pattie's Blog
  • TonsDeMagia
  • Nosso-Cotidiano
  • conchas...As mais Belas...
  • Trespassa meu corpo e aconchega minha alma
  • Zambeziana
  • Aprendiz de feiticeiro
  • De que me servem os olhos
  • as velas ardem sempre até ao fim

23.8.10

zen...



fotografias do jardim

O espaço Zen Family situado em S.Pedro de Sintra, na Quinta de S.Pedro de Chão de Meninos que data da segunda metade do séc.XVIII, é um espaço tranquilo, inebriante pela decoração e aromas que se pode desfrutar a cada passo que se dá e descobre pequenos recantos, que se podem transformar em momentos de relaxamento, massagens, práticas energéticas, cursos e workshops, meditação, medicina tradicional chinesa, viagem sonora, shiatsu, yoga....
todos os objectos, vestuário e mobiliários do espaço zen family encontram-se à venda.
Há um jardim tranquilo, onde se pode desfrutar de um chá, ler e relaxar...

22.8.10


seria difícil para mim viver sem janelas
acontece tantas vezes pegar no lápis e segurá-lo com a firmeza de quem vai escrever, como se tivesse a convicção inocente que este acto por si próprio, fosse suficiente para desencadear a escrita do que realmente quero dizer, mas não o é, claro! Apesar de tudo, faz-me bem fazê-lo...
às vezes de volta do papel, com o pensamento a divagar e a tomar outras formas de expressão, quanto mais não seja o silêncio, talvez mais difícil de gerir, do que se conseguisse talvez escrever ou desenhar.
Desenhar, cada vez mais escasso e sem sentido nos dedos que se esbatem sobre o próprio carvão.

As crianças expressam-se muito através do desenho. Lembro-me de alguns dos meus na altura, sobretudo, o céu de nuvens azuis sobre a casa de duas janelas a traço vermelho, a pequena estrada e as flores... o quanto repetia vezes sem conta este desenho! As pessoas de mãos grandes e dedos longos, desproporcionais ao corpo, agora nem me atrevo desenhá-las.
Na adolescência, o abstracto. Padrões enigmáticos, talvez a confusão sentida ou a tentativa de decifrar a vida, não ela menos abstracta.
E talvez este sentir pelo desenho o deva à minha avó. Tenho tanta pena de nunca a ter visto pintar com as suas mãos de coragem.
Os seus gestos são memórias de que tantas vezes me socorro.
Guardo a imagem da sala de veludo carmim, com paredes baças envelhecidas pelo tempo, o brilho de um quadro com uma rapariga de chapéu, numa charrete puxada por um cavalo branco e uma envolvência verde...

prémio


O Miguel Loureiro do surpreendente blogue Rotary Club da Póvoa de Varzim, ofereceu-me o Prémio "blogue de ouro", o qual agradeço desde já a distinção :-), tem as seguintes regras:

1º Colocar a imagem do selo no blogue; (aqui está ele)
2º Indicar o link do blogue que me indicou; (também já está)
3º Indicar 3 blogues para receber o selo; (só um bocadinho)
4º Comentar nos blogues indicados; (falta-me essa parte)

e os nomeados desta vez são:

18.8.10

a tarde perdia o esplendor do dia porque o sol morno parecia brando e pequeno, no céu raiado de luz e pintado de laivos brancos. Vesti os braços porque o vento fazia aumentar uma qualquer sensação de desaconchego. As 8h de trabalho tinham parecido o dobro, e o pensamento desdobrava-se nas múltiplas imagens do dia. calei as incertezas com a célebre frase “fizeste o teu melhor”... e quis esvaziar o pensamento de tudo o que me prendia o sorriso.
Aconcheguei de novo o casaco que o vento teimava em descobrir o ombro, olhei mais uma vez o céu, não tão alto como em outros dias e caminhei a passos lentos dando tempo de recuperar o fôlego do dia.
Entrei no shopping da minha rua decidida a resgatar um pequeno sabor a verão ou sorriso escondido. Estava quase vazio, deu-me mais espaço para desenrolar pensamentos. Parei na loja das velas e incenso, ahh como há aromas capazes de devolver brilhos de sensações! Inspirei longamente e disfarçadamente, poderia alguém não entender.
A livraria estava vazia, não me senti com forças para lá entrar sem nada trazer. A montra da sexshop, um olhar de soslaio, e um sem número de cores e feitios, um arco-iris? primavera? ou uma silenciosa gargalhada.
A florista, rosas brancas, flores do campo e tulipas, fizeram-me sair de sorriso a despontar no canto dos lábios.
Que amanhã seja mais breve e leve...

15.8.10

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nestas tardes quentes, só apetece encher a sede com frutos frescos!
mais um post escrito a horas impróprias, às quais já nem a lua me pisca o olho... agora só de manhã irei escrever no teclado mais atordoado. Mais um escrito na cozinha, onde na penumbra do candeeiro de mesa e no meio silêncio da casa, as palavras ousaram desaguar como num porto de abrigo.
O calendário preto já vai mais que a meio, as folhas já se curvam mês após mês, o único calendário de parede que gostei até hoje, acho-os sempre pirosos e sem graça e foram precisos 36 anos para encontrá-lo mas só durará um ano, a verdade é que me demoro mais no fundo preto que emoldura as paisagens, do que no tempo que passa indelével e fugaz como o tic-tac do relógio.
E pouco diferente desta hora, sobre a madrugada, quando o sono vai nos labirintos mais recônditos dos sonhos, serei acordada pelos passos dos mais pequenos, porque assim é todas as noites, e mesmo antes de lhes sentir as mãos pequenas e doces tactearem o meu corpo cansado, já lhes pressinto os passos seguros.
E o tempo não se resume apenas à imagem furtiva de folhear os meses, sem sentir o peso deles. Seria uma mentira...
Não me fixo a datas, os números passam por mim e não os recordo, quem me conhece dá o desconto e perdoa, nem sempre :-)
As imagens,os detalhes, os acontecimentos e emoções vividas, esses ficam tatuados sem terem a importância de um dia gravado na memória de um calendário.
O que levo do tempo, o espelho mostra-me... como que um infinito na sombra dos olhos, a cor do tempo.

14.8.10

Lunário


"Uma brisa nocturna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via, afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios..."
Al Berto
(prosa)

11.8.10

peço

...talvez uma janela no céu, com uma qualquer brisa, um desvario, uma gota de vento que se enamore pelo menos da noite, entre por aquilo que ainda pensava serem janelas, de uma estufa chamada casa.
Alguém devia tratar desta situação.
Na rua o mesmo irrespirável, quente, parado ar!
E o oxigénio?
Alguém que trate disto por favor!

31 graus à sombra da noite, candeeiros quentes, nas ruas que o sol deixou à lua...
ruas a rebentar de calor cafés cheios
cheiro a café amargo ombros despidos
conversas como frutos frescos no canto dos lábios
a sangrar tempestades e a adormecer doces no calor da noite.

7.8.10

Solércia


A Quinta da Regaleira em Sintra é mais uma vez palco de uma peça representada pelo grupo de teatro Tapafuros – SOLÉRCIA com textos de Gil Vicente, encenação de Rui Mário, música original de Pedro Hilário. Tudo decorre à noite e ao ar livre no ambiente místico e arrebatador da Quinta da Regaleira, vários são os pontos de paragem que fazem parte de uma viagem a pé, facilmente se entra no espírito desejado, desfrutando de uma peça de teatro que se molda e encaixa na perfeição aos vários cenários vivos da quinta. Abrilhantada por luzes, adereços e momentos únicos de representação, aqui fica uma nota para quem quiser desfrutar desta peça a decorrer até dia 10 de Outubro.
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para quem não conheça a Quinta da Regaleira aqui fica mais este post
Ando nisto há uns dias... não sei precisar, mas sei que há uns dias certos, tão certos como o amanhecer melancólico que o dia de ontem acordou, tão certos como o anoitecer que mais calmo se tornou.
É confuso... mas o silêncio vive a cada esquina de alguns dias, não o silêncio da voz mas o silêncio das palavras que secam mesmo antes da tinta molhar o papel. Talvez uma amnésia ou preguiça.
Ando numa desorganização exterior, na tentativa absurda de organizar cada pedaço à minha volta, entretanto é tamanha a des/reorganização que bloqueia qualquer fio de pensamento ou palavra.
Inexplicávelmente deixo-me embalar nesse silêncio e desenho enquanto isso, umas quantas palavras esfarrapadas nos cantos quase calmos da casa.
Os dias de aparente descanso estão a terminar e em breve voltam os dias de imenso trabalho. E a pensar nisso, agarro-me aos papéis e deixo-me escrever. Nem sempre gostei de escrever. Tenho na memória o meu primeiro professor de português, o temor mais conhecido em todo o colégio, as dores de estômago de qualquer aluno. As mãos trémulas e a boca seca com o coração a saltar quase porta fora, audível em toda a sala, assim eram as aulas do Prof. Góis que por cima dos seus meios óculos olhava-nos com o mais frio e cortante dos olhares, folheava a caderneta com o nome dos alunos que aleatoriamente chamava ao quadro, e como se de uma arma se tratasse, era aquela caderneta a primeira coisa que saía da sua mala a esvoaçar no ar com grande orgulho. Sem sombra de exagero, ao mais pequeno falatório, o professor erguia a cabeça com os óculos ao mesmo tempo e com a face quase a explodir de vermelho, dizia palavras intensas e esbaforidas, que depois nem mais um insecto se voltava a ouvir em tamanha sala. Na altura lembro-me de já ser tímida, e ir ao quadro sobretudo naquelas circunstâncias, era uma sensação repentina de palidez, como se me parasse a corrente sanguínea e apenas um fio de mim se arrastasse desde a cadeira até ao quadro.
Passados uns anos recordávamos aquelas aulas com fortes gargalhadas e com um grande desconto devido à idade já muito avançada do professor.
Felizmente existiam as escadas que davam para a sala de música, as escadas onde menos subiam e desciam pessoas. As escadas dos desabafos, das lágrimas e das gargalhadas, tudo ali acontecia. Umas escadas em mármore em que aguardávamos sentados que a sala de música se abrisse com a Irmã Benilde a nos abrir a porta. Por mais que tentássemos, ali o silêncio era impossível, quanto mais nos concentrávamos, assim mais uma gargalhada se escapava sonora das nossas bocas e olhos e tudo. A Irmã cheia de boa vontade enchia-nos as aulas de xilofones, pandeiretas e flautas. Posteriormente passou a fazer parte das aulas de música o maestro Victor Costa que nos colocou a cantar. Cada vez que o maestro fazia parte das aulas, os nossos olhos e os da Irmã Benilde brilhavam de felicidade, formámos um coro infantil consistente que nos fazia cantar e dançar até nos intervalos... e em festas dos finais de período, mais tarde mesmo em cerimónias para o exterior.
Guardo tantas saudades desse tempo. Sobretudo das escadas... com o tempo, todos nós acabamos por adoptar lugares e momentos para descomprimir.
Escrever e recordar, acaba sempre por ser um desses momentos, entre outros...

1.8.10

Desafio


A Em@ lançou-me um desafio muito interessante ao qual me predispus responder.

1. Porque que é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?

Este blogue nasceu na altura, de uma vontade muito forte em criar e partilhar alguma coisa... sem ter no entanto uma ideia bem definida, comecei sobretudo por escrever, no início textos mais ao menos específicos, tendo alguns pontos de ligação com a área da saúde.
Mas desde cedo, o conteúdo do blogue inclinou-se sobretudo para aquilo de que o meu imaginário se alimenta - arte, escrita, música... não tendo qualquer formação em cada uma destas áreas agora referidas, ter o blogue tem sido apenas e tanto, uma possibilidade de partilhar emoções...
e cada vez mais, como qualquer emoção, o abstracto e o inespecífico prevalece, os textos e os desenhos, acabam por ser para mim um escape a um dia de trabalho intenso, um desabafo, um desafio e um prazer...
em relação à popularidade... Nah, nunca pensei nisso! Estou aqui num canto da lua :-)
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2. Em que data exacta iniciou o blogue?
O blogue teve início no dia 31 de Dezembro de 2008, portanto na noite de passagem de ano... foi um dos desejos :-). Sinto no entanto que me falta tempo, disponibilidade para mantê-lo vivo como gostaria, por isso penso muitas vezes que perdurará enquanto a vida me permita.
Obg Em@ pela distinção e sobretudo por este bocadinho, porque é sempre bom fazer uma retrospectiva das coisas! Beijinho especial para ti.
Posteriormente um dos blogues que sigo com grande prazer Ler é viver também me ofereceu este mesmo selo :-) desculpa didium, só vi posteriormente! Obg e um grande beijinho para ti.