Ando nisto há uns dias... não sei precisar, mas sei que há uns dias certos, tão certos como o amanhecer melancólico que o dia de ontem acordou, tão certos como o anoitecer que mais calmo se tornou.
É confuso... mas o silêncio vive a cada esquina de alguns dias, não o silêncio da voz mas o silêncio das palavras que secam mesmo antes da tinta molhar o papel. Talvez uma amnésia ou preguiça.
Ando numa desorganização exterior, na tentativa absurda de organizar cada pedaço à minha volta, entretanto é tamanha a des/reorganização que bloqueia qualquer fio de pensamento ou palavra.
Inexplicávelmente deixo-me embalar nesse silêncio e desenho enquanto isso, umas quantas palavras esfarrapadas nos cantos quase calmos da casa.
Os dias de aparente descanso estão a terminar e em breve voltam os dias de imenso trabalho. E a pensar nisso, agarro-me aos papéis e deixo-me escrever. Nem sempre gostei de escrever. Tenho na memória o meu primeiro professor de português, o temor mais conhecido em todo o colégio, as dores de estômago de qualquer aluno. As mãos trémulas e a boca seca com o coração a saltar quase porta fora, audível em toda a sala, assim eram as aulas do Prof. Góis que por cima dos seus meios óculos olhava-nos com o mais frio e cortante dos olhares, folheava a caderneta com o nome dos alunos que aleatoriamente chamava ao quadro, e como se de uma arma se tratasse, era aquela caderneta a primeira coisa que saía da sua mala a esvoaçar no ar com grande orgulho. Sem sombra de exagero, ao mais pequeno falatório, o professor erguia a cabeça com os óculos ao mesmo tempo e com a face quase a explodir de vermelho, dizia palavras intensas e esbaforidas, que depois nem mais um insecto se voltava a ouvir em tamanha sala. Na altura lembro-me de já ser tímida, e ir ao quadro sobretudo naquelas circunstâncias, era uma sensação repentina de palidez, como se me parasse a corrente sanguínea e apenas um fio de mim se arrastasse desde a cadeira até ao quadro.
Passados uns anos recordávamos aquelas aulas com fortes gargalhadas e com um grande desconto devido à idade já muito avançada do professor.
Felizmente existiam as escadas que davam para a sala de música, as escadas onde menos subiam e desciam pessoas. As escadas dos desabafos, das lágrimas e das gargalhadas, tudo ali acontecia. Umas escadas em mármore em que aguardávamos sentados que a sala de música se abrisse com a Irmã Benilde a nos abrir a porta. Por mais que tentássemos, ali o silêncio era impossível, quanto mais nos concentrávamos, assim mais uma gargalhada se escapava sonora das nossas bocas e olhos e tudo. A Irmã cheia de boa vontade enchia-nos as aulas de xilofones, pandeiretas e flautas. Posteriormente passou a fazer parte das aulas de música o maestro Victor Costa que nos colocou a cantar. Cada vez que o maestro fazia parte das aulas, os nossos olhos e os da Irmã Benilde brilhavam de felicidade, formámos um coro infantil consistente que nos fazia cantar e dançar até nos intervalos... e em festas dos finais de período, mais tarde mesmo em cerimónias para o exterior.
Guardo tantas saudades desse tempo. Sobretudo das escadas... com o tempo, todos nós acabamos por adoptar lugares e momentos para descomprimir.
Escrever e recordar, acaba sempre por ser um desses momentos, entre outros...