8.7.10

O verão chegou a todas as coisas... o cheiro do calor tomou conta dos dias e as ruas respiram ar seco, quase é preciso imaginar rios de água fresca a desaguar na boca para conseguir continuar.
os lábios abafados e o olhar quase baço de calor, denunciam os corpos desidratados dos mais frágeis...
Vejo negras as pernas de uma mulher grávida, numa posição de espera quase comovente, um emaranhado de varizes pede tréguas e descanso a quem como eu, se fixa a olhar, parecem rebentar com o peso que a vida lhes trouxe... ela, indiferente a qualquer dor abandonava-se como num olhar perdido naquela rua de calor. Só me faltou gritar por uma cadeira e lhe oferecer um pouco de descanso. Mas troquei apenas curtas palavras e deixei-me contagiar depois pela lentidão da rua, pelo calor que torna os passos lentos, e pelo olhar vago em direcção ao sol.
Os corpos suam num desalento de calor, os decotes das mulheres insinuam-se e fazem chegar o verão aos olhos de homens adormecidos.
As roupas secam apressadamente nos estendais da vida e esta parece mais fácil e apelativa, o céu pinta-se de um imenso todo que só num abraço de longos braços se conseguiria sentir...
Por instantes fez-me isto recordar, um dia que um dos meus filhos me dizia: “mãe, tens os braços tão compridos!” ... lembro-me tão próximo e perto disto, embora já fosse há tanto...no momento manifestei-me surpreendida, depois imaginei que porventura, podia ele sentir que o meu abraço era pleno e imenso... e talvez se sentisse todo envolto nos meus braços banais. E mesmo sabendo que os meus braços serão tão compridos como os de qualquer mãe ou pai, gostei tanto que ele tivesse essa sensação...
O verão chegou a todas as coisas e a nuvem de calor que se esgueira sobre o asfalto a queimar faz lembrar longas viagens, em busca de um verão sempre pronto a recordar e a sentir, tal como num abraço imenso.

7 comentários:

  1. Li-te com atenção e como sempre gostei as palavras que escolhes para pores a nu a sensibilidade.
    Falaste do que te disse o teu filho e eu lembrei-me de uma fotografia tirada com o meu, neste último sábado numa pequena viagem que fizemos.Olhar para esta fotografia e ver-me ,eu, agora na posição inversa de há uns anos atrás...Mal lhe chefo ao ombro :D
    E pergunto-me, com uma nostalgia alegre, como foi possível aquele latagão ter saído de dentro de mim.
    Benzódeuzzzzz, meu príncipe encantado!

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  2. o verdadeiro verão está nestas palavras enxutas, mas húmidas no coração. passeei neste mundo que construíste à sombra deste julho infernal, amiga andy!
    um beijinho!
    (a imagem dos estendais da vida... é soberba! levo-a comigo :-))

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  3. não só imagimanos, mas às vezes quase podemos sentir a àgua fresca...
    beijos
    Aryane Brilho da Lua

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  4. falta-me um comentário que publiquei e não aparece! tenho esperança que esta situação da blogosfera se resolva rapidamente... mil desculpas "ingarrido-laura", bem-vinda e aguardo ansiosamente que o seu comentário reapareça!

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  5. Em@ compreendo quando dizes "nostalgia alegre" de facto imagino que deixe muitas saudades, a fase em que os filhos são mais pequenos...mesmo tendo consciência disso, estou numa fase em que gostaria de os ter mais crescidos! mas sem dúvida que apesar de ser uma fase muito cansativa tem momentos insubstituiveis.
    Beijinho grande e parabéns pelo príncipe! :-)

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  6. Jorge, um julho que quase queima! os estendais da vida surgiu numa imagem quase intuitiva :-))
    obg p'la tua leitura. Beijinho!

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  7. verdade, Aryane! quando a necessidade é imensa, o imaginário consegue superar a realidade! :-)
    bem-vinda! volte sempre.

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