O verão chegou a todas as coisas... o cheiro do calor tomou conta dos dias e as ruas respiram ar seco, quase é preciso imaginar rios de água fresca a desaguar na boca para conseguir continuar.
os lábios abafados e o olhar quase baço de calor, denunciam os corpos desidratados dos mais frágeis...
Vejo negras as pernas de uma mulher grávida, numa posição de espera quase comovente, um emaranhado de varizes pede tréguas e descanso a quem como eu, se fixa a olhar, parecem rebentar com o peso que a vida lhes trouxe... ela, indiferente a qualquer dor abandonava-se como num olhar perdido naquela rua de calor. Só me faltou gritar por uma cadeira e lhe oferecer um pouco de descanso. Mas troquei apenas curtas palavras e deixei-me contagiar depois pela lentidão da rua, pelo calor que torna os passos lentos, e pelo olhar vago em direcção ao sol.
Os corpos suam num desalento de calor, os decotes das mulheres insinuam-se e fazem chegar o verão aos olhos de homens adormecidos.
As roupas secam apressadamente nos estendais da vida e esta parece mais fácil e apelativa, o céu pinta-se de um imenso todo que só num abraço de longos braços se conseguiria sentir...
Por instantes fez-me isto recordar, um dia que um dos meus filhos me dizia: “mãe, tens os braços tão compridos!” ... lembro-me tão próximo e perto disto, embora já fosse há tanto...no momento manifestei-me surpreendida, depois imaginei que porventura, podia ele sentir que o meu abraço era pleno e imenso... e talvez se sentisse todo envolto nos meus braços banais. E mesmo sabendo que os meus braços serão tão compridos como os de qualquer mãe ou pai, gostei tanto que ele tivesse essa sensação...
O verão chegou a todas as coisas e a nuvem de calor que se esgueira sobre o asfalto a queimar faz lembrar longas viagens, em busca de um verão sempre pronto a recordar e a sentir, tal como num abraço imenso.