30.7.10



há no pôr-do-sol um fogo lento que perdura no horizonte...
tão fugaz sensação térrea ou celeste,
quase até insano e pulsátil como um calor no olhar e o arrepio na pele.
esplendoroso rasgar de céu
no fogo que queimou... o calor e as cores esbatem-se
quando o sol tocou o mar, um vazio ficou à sua partida...
à sua partida
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fotos - Lagoa de St. André

29.7.10

Nesse dia levantei-me primeiro que todos...não antes que a melodia do mar a desmaiar ao longe no areal e não antes que o cantar dos galos a me fazer reviver pedaços de infância.
Mas ainda nem o sol se via no céu, apenas a lua prateava a rua fosca, já eu saboreava aquele momento tão breve e quieto, naquela varanda da qual me despedia. Há lugares que nos dão vontade de ficar, e fotografar os momentos com imagens e palavras é quase inevitável.
Aos poucos o sol foi iluminando o verde e tão viçoso pinheiral que todas as tardes se derretia ao sol, em frente à varanda.
Fiquei até aos candeeiros da rua se apagarem e darem lugar à luz do dia.

23.7.10

amanhecer


Por vezes acordamos de um leve dormir em que as ondas do sono se entregam à noite breve...
mal o sol pousa nas neblinas ao fundo no horizonte, já o corpo tacteia a vertigem da manhã...
A rua rompe num desabafo de vento com o sol a testemunhar o cabelo, o sorriso e o corpo num desalinho...
E hoje foi mais um dia... amanhã será menos um, dois e mais dias, de tanto os querer parar no tempo.
Encosto-me aos murmúrios que estão para lá dos carris, dos pássaros pousados nas árvores e das vozes das pessoas que passam... e revigoro-me nos dias que o tempo me oferece.

18.7.10

doces livros


Há cerca de umas semanas atrás, numa feira do livro e artesanato, encontrei um livro que não sendo poesia ou romance, é quase um desconcertante desfile de sensações, como são a maioria dos livros de receitas e culinária. É verdade, para mim folheá-los é quase como saborear antes de se sentir, como a sensação que antecede ao chocolate na boca, ou algo que pressentimos ser suculento faz nascer um sorriso espontâneo no canto dos lábios. "Afrodite" de Isabel Allende é mais do que isso, trata-se quase de um trabalho de investigação que a autora se predispõe a partilhar, nomeadamente relativamente aos efeitos que determinadas iguarias influenciam no corpo, quer sejam elas, relaxamento ou êxtase, são descritos com a maior boa disposição. Isabel Allende faz referência a algumas das suas obras literárias, acompanhadas de histórias que a memória dos sabores não falha. Durante este percurso sobre o mundo dos alimentos, muitas são as pinturas apelativas nas cores e formas, que completam o saborear deste livro cozinhado com os melhores temperos vindos do coração.
Um outro livro surgiu “Cozinha para quem não tem tempo” de Margarida Pinto Leite, quase o caracterizo como um pequeno diário de folhas simples, que nos fazem mergulhar numa atmosfera de calma e contemplação pela junção, diria que quase sofisticada dos alimentos. Valeu já pelo creme de courgette, e tantas outras a experimentar como, pão de coco, brownies com manteiga de amendoim, bolo de veludo vermelho com cobertura de sete minutos, bife grelhado com cogumelos do campo e recheio de tomate seco e manteiga, e enfim, tantas outras. Acrescenta ainda, utensílios, especiarias e alimentos úteis e indispensáveis para a autora, em como ter uma cozinha sempre activa e pronta a deslumbrar.
Depois de um fim-de-semana exaustivo a trabalhar, tive vontade de chegar a casa e saborear o que resta deste domingo, tentando que se parecesse o mais possível com um comum domingo...e talvez o cheiro de um bolo no forno fosse o ingrediente para criar essa atmosfera. A verdade é que olhei para estes livros, e daí a minha partilha... mas o pensamento surreal que os ingredientes se juntassem sozinhos ao ritmo dos meus desejos, foi a única coisa que o cansaço permitiu...
não hão-de faltar oportunidades e vontade! :-)

16.7.10


há dias assim...que nem os passos andam no alinhamento da vida, nem o sol parece seguir o trilho de um céu que será estrelas, há dias que até a roupa colada ao corpo sai à rua do avesso...
as palavras parecem flores que murcham numa jarra desolada.
há no fino fio do horizonte uma breve neblina quente que se afasta com o vento...
como é bom por fim fechar os olhos que ardem, sentir o cabelo solto ao vento e as roupas já concertadas colarem-se ao corpo então alinhado.

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9.7.10

8.7.10

O verão chegou a todas as coisas... o cheiro do calor tomou conta dos dias e as ruas respiram ar seco, quase é preciso imaginar rios de água fresca a desaguar na boca para conseguir continuar.
os lábios abafados e o olhar quase baço de calor, denunciam os corpos desidratados dos mais frágeis...
Vejo negras as pernas de uma mulher grávida, numa posição de espera quase comovente, um emaranhado de varizes pede tréguas e descanso a quem como eu, se fixa a olhar, parecem rebentar com o peso que a vida lhes trouxe... ela, indiferente a qualquer dor abandonava-se como num olhar perdido naquela rua de calor. Só me faltou gritar por uma cadeira e lhe oferecer um pouco de descanso. Mas troquei apenas curtas palavras e deixei-me contagiar depois pela lentidão da rua, pelo calor que torna os passos lentos, e pelo olhar vago em direcção ao sol.
Os corpos suam num desalento de calor, os decotes das mulheres insinuam-se e fazem chegar o verão aos olhos de homens adormecidos.
As roupas secam apressadamente nos estendais da vida e esta parece mais fácil e apelativa, o céu pinta-se de um imenso todo que só num abraço de longos braços se conseguiria sentir...
Por instantes fez-me isto recordar, um dia que um dos meus filhos me dizia: “mãe, tens os braços tão compridos!” ... lembro-me tão próximo e perto disto, embora já fosse há tanto...no momento manifestei-me surpreendida, depois imaginei que porventura, podia ele sentir que o meu abraço era pleno e imenso... e talvez se sentisse todo envolto nos meus braços banais. E mesmo sabendo que os meus braços serão tão compridos como os de qualquer mãe ou pai, gostei tanto que ele tivesse essa sensação...
O verão chegou a todas as coisas e a nuvem de calor que se esgueira sobre o asfalto a queimar faz lembrar longas viagens, em busca de um verão sempre pronto a recordar e a sentir, tal como num abraço imenso.

4.7.10


Rita Redshoes - Captain Of My Soul

faixa do último CD "Lights & Darks" de Rita Redshoes... faz lembrar um dia como o de hoje, cheio de sol e música! :-)

insónia

só o som da caneta a riscar o papel e a penumbra da noite... no silêncio.
mais um roubo ao sono, por um, dois, quatro quadrados de chocolate.
abro a janela e só as folhas balançam doces no vento e no tempo.
só o rádio que liguei para me fazer escrever...
há nas insónias um mundo desencantado de fadas, cinderelas e sapatos de cristal. os morcegos espreitam e rejubilam de alegria trocista, as vozes da noite ecoam mais alto que as doze badaladas de um relógio encantado. e nem varinha mágica ou vestido de baile, apenas o corpo no sossegado silêncio que não dorme...
o rádio toca, e a harmonia das crianças respiram um sono leve... é o meu momento, ainda que breve...