29.6.10


caravaggio

presságio


nas asas do vento
deixaste embalar as tuas...
a janela guarda a poeira dos dias
gotejando secas no vidro
as chuvas de Março.
chegaste...
quem contou tal presságio?
na janela ou na pele
apenas nas flores de mel
te confio!
quero adormecer
e não te saber...

27.6.10


iñaki Plaza & Ion Garmendia - vídeo
"amalgama de materias en movimento que se entrelazan concibiendo texturas imaginarias y sueños musicales"

frase transcrita do CD

iñaki Plaza & Ion Garmendia - concerto







com uma sonoridade diferente, fazendo lembrar as paisagens verdejantes dos alpes... são originais nos instrumentos que usam e que trazem de múltiplas viagens que fazem, nomeadamente falaram de uma pedra que trazem da costa francesa, uma pedra que fica enterrada no mar que ao absorver o sal, surgem cristais no seu interior e que ao ser tocada faz uma sonoridade própria que lhes encanta.

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os aromas que ainda persistem fazem adivinhar o sabor do dia, a quietude que finalmente se respira, e a languidez de um corpo cansado, são o que restou do dia...

25.6.10

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Hoje pelas 22h inicio do Festival Sete Sóis Sete Luas na Fábrica da Pólvora.

"O Festival Sete Sóis Sete Luas, promovido por uma rede cultural de trinta cidades de dez países do Mediterrâneo e do Atlântico - Brasil, Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos e Portugal, surge pela primeira vez em Oeiras no ano de 2000 tendo encontrado na Fábrica da Pólvora um dos seus palcos mais importantes."

esta manhã na F. Pólvora










"A Fábrica da Pólvora de Barcarena funcionou entre 1540 e 1940, tendo assumido um papel importante para a população local, como fornecedora de emprego e como motor de desenvolvimento da região e do país.
Após alguns anos ao abandono, a Câmara Municipal de Oeiras resolveu recuperar a velha fábrica para fazer ali um grande centro de cultura e lazer, que aloja, actualmente, um mundo de interesses variados, desde um museu sobre a história da fábrica, cafés e dois restaurantes, até um parque infantil, espaço para realização de espectáculos, etc..."

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23.6.10

...de verão

Hoje desviei de rota ... e já o dia ia a meio caminho, lembrei-me da chegada do verão... o mesmo verão que nos enche de sol e cor. E de flores miúdas estava eu vestida, flores de pétalas verdes, lembrando as serenas flores do campo que se estendem tão perfeitas sobre a terra.
Recordei como gostava de rolar por tantas vezes naquela descida íngreme de relva... perdia a noção do tempo, da gargalhada solta, do céu redondo e de ser criança e sentir a alegria no coração, com tamanho abraço de relva.
Corri porque o tempo é breve e fugidio como uma serpente veloz, corri ainda que com as calças teimosamente escorregadias pelo quadril abaixo. E as passadas largas que aceleram o coração e as mesmas que fazem prender a respiração, deixavam-me sem fôlego, e nem com um bocejo louco consegui recuperar.
Há uma doente com o mesmo nome da minha avó, pensei nela, pensei que no seu coração não há um verão anunciado ou um sorriso sentido. Todos os dias serão inverno para ela e cinza traz nos olhos. Nem todos os corações se pintam de verão, mesmo que o sol se ponha mais quente que nunca e que o mar seja uma balada vestido de azul tão denso...
Agradeço, ainda que seja o meu coração outono, a vontade que tem de viver cada verão anunciado, numa entrega aos aromas, às cores e texturas de dias mais longos, luminosos e quentes.
E levo nos bolsos uma mão cheia de dias de sol para as noites mais frias que o céu possa adivinhar.

21.6.10

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Sabe-me a pouco estes momentos de silêncio que por fim se respira... tudo ficou quieto nuns minutos que poderiam ser horas e prolongarem-se por uma noite inteira.
É num fim de dia, é num silêncio ou num regresso a casa, que os pensamentos serenam ou incendeiam mas sobretudo, é num momento que são sentidos fora da dormência da alma que por vezes um dia agitado me traz...
Tudo repousa, menos o vento lá fora continua agitando as árvores da rua adormecida.

19.6.10

18.6.10

Estrada

Massamá
...
Quero janelas abertas
E o sol a entrar
Quero o meu mundo inteiro

...
A estrada é feita p'ra seguir
E hoje, sente
A vida feita de sentir
E hoje vira do avesso o mundo
E vê melhor

...
Mafalda Veiga
"Estrada"

17.6.10

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_ então, comprou muitas revistas? – perguntou
_ eu? - sem perceber, olhei com um ponto de interrogação no ar.
_ vi-a, comendo um gelado no quiosque!
( franzi o sobrolho, não teria sido eu...)
_ ah! n... - tentei dizer que não era eu, olhando para a minha revista também acabadinha de comprar, mas na papelaria e sem gelado.
_ tire os brincos, por favor - disse de imediato
_ claro! - (... vamos mas é concluir isto rapidamente - pensei eu).
_ este avental é para a proteger das radiações – disse
_ sim, obrigada! ( oxalá seja eficaz, penso sempre)
_ apoie aqui o queixo, não se mexa e não fale - ( fiquei em apneia)
Foi, voltou e perguntei:
_ está muito mau?
_ não sou estomatologista, mas julgo que não... tal tal ...etc e tal, sete pardais a um ninho...
...
E lá fui eu, com a minha ortopantomografia em mãos. Na estação, escolhi o pedaço de chão onde ainda existia a última nesga de sol, e esperei pelo comboio.
Quase por um triz, não saía, onde outrora foi chamada "Mactamã", que significa "lugar onde se toma boa água, "ou “fonte”. Massamá, por estar situada a meio caminho das praças fortes de Lisboa e Sintra, era o lugar onde os guerreiros e viajantes costumavam parar para descansar e saciar as suas sedes.
De facto, é aqui que bebo da fonte para retemperar as forças e é sempre um regresso e uma partida, um recomeço e um fim, um frio e um calor, um luar em fim de tarde e umas estrelas por contar...


Cock Robin

... com cheiro a naftalina, é sempre bom recordar.

15.6.10

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as andorinhas hoje em plena IC19, mais eufóricas que harmoniosas, atraíam os olhares de todos quantos ali passavam, suponho. numa inegável dança sob o céu azul... numa inquestionável primavera. quais flores de jasmim... rodopiavam enamoradas pelo ar que se respirava.
ao fim do dia, entrei entusiasmada, sem quase pensar nos meus olhos, na livraria que reabriu... está renovada, mesmo que não tivesse, seria sempre uma livraria... mais parecia uma criança a folhear um livro, aquele e ainda o outro, depois de tamanha avidez ou melhor, depois de uma grande descontracção e "lata" decido sair sem nenhum livro em mãos e tantos nos olhos.
...na estação vendiam flores e não as comprei, as cerejas mal pesadas que a última vez de lá trouxe, tinham sabor de água e faltava-lhes o doce sabor de um dia.

14.6.10


Fever Ray

Avenida

A avenida adormece primeiro que tudo, mesmo antes de um pestanejar calado, já o silêncio decalcou as arestas da noite. Nas ruas a penumbra cai indecifrável... como um fio condutor as vozes desaguam num final de dia. Já a música calou no bar, já as janelas vistas da rua são candeias quentes ao luar.
Os ventos trazem o sol e os dias e as horas...
amanhã chegará rápido, as noites são ultimamente sempre breves e brancas e o descanso não tem lugar.
Onde moro foi em tempos uma avenida de quase ninguém, estava um dia cinzento lembro bem, apenas existia a arquitectura dispersa ao longo de um trilho incógnito. Hoje é um dormitório cheio, mesmo de dia se agita imitando uma pequena cidade. O comércio brota como desejos sonhados que dificilmente vingam pela inconstância da vida. Os bares enchem no frio calor da noite, deixam um rasto de música e cheiro de cigarros fumados até à beata que queima os dedos. O mexicano na transparência das janelas coloridas, revela os sons e temperos de uma noite quente de verão.
Gosto de ir à janela, respiro o ar da noite, avistando o próximo dia, gosto de olhar o horizonte porque só bem longe se estendem os sonhos e o amanhã vem depressa.

11.6.10

Nenhum olhar


"Foi como se houvesse nevoeiro dentro da vida, a entrar-me nos ossos, a cegar-me para o que não existe: as manhãs; o céu limpo; as primaveras; o conforto dos teus abraços, pai. E já não era criança. Em casa, nas noites, não voltou o gigante. Enrolada no xaile negro do meu luto, passava ao rés das paredes e as conversas paravam quando me aproximava e as mulheres ou os homens ficavam a olhar-me, como se me procurassem os olhos."
José Luís Peixoto

8.6.10

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Deixei-me embalar no vento, a rua viu-me passar...
Inspirei até aos alvéolos profundos, não toquei na dor, talvez quando me lembrar, já lá não esteja...
Não posso mentir, as pedras da calçada fazem-me falar no silêncio. As árvores com flores violeta guardaram o repouso do meu olhar.
As nuvens de lágrimas pesadas no céu oco... e eu, sem sombra, sem baton, sem verniz e talvez sem luz.

7.6.10

mar

imagem retirada da internet
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Hoje desejei tanto da janela avistar o mar, precisava do azul água imenso, de tão imenso que o olhar termina no horizonte e depois só fica o céu a nos ouvir... e como num abraço de maresia me reconfortaria quando os meus braços descansassem no parapeito da janela e as minhas mãos colhessem a sensação de molhos de algas a me retemperar as forças.
Na impossibilidade, esqueci a rua repleta de movimento e inspirei o aroma que o vento trouxe nesta tarde em que a calma não teve morada.

3.6.10


Em frente ao vento que descansou sobre o dia, e às nuvens que sobre o dia pousaram, ficou o anoitecer cansado, onde nem as árvores se agitam ao sabor do vento...
O olhar das pessoas, a fragilidade, as vozes, as pessoas... as suas mãos, o corpo, o corpo doente de quem se cuidou... o meu olhar, a fragilidade, a minha voz, as minhas mãos, o meu corpo cansado. E o dia esventra-se ao compasso da vida, e as horas sugam as energias que colhemos de uma flor e os céus aguardam o sol que rasgue quente o azul.
Fica o silêncio da noite , como um estrondo que nasce e morre num fio de som abafado, num piano sussurrado.

1.6.10

lago

"O lago mergulha as suas águas no silêncio e pendura ventos nas copas das árvores.
O vento brinca às escondidas com a vida e o Sol adormece, ao princípio da tarde.

O lago molha-nos os pés com doçura, e espelha paisagens sempre incompletas. A luz solta-se nas superfícies líquidas e persegue peixes presos na solidão.

O lago é uma carpete que se estende entre margens, com fios de água entrelaçados nas cores das transparências, onde barcos se sentam a balouçar, à espera de algo, talvez da enorme melancolia."


momentos
João Carlos Pereira