20.4.10

conversas à mão de semear

saí hoje do comboio mais uma vez debaixo de chuva e sem qualquer tipo de dúvida, caminhei tentando saborear as gotas refrescantes e felizmente leves... quase carregava o mundo nos ombros e não havia hipótese para qualquer tipo de guarda-chuva.
absorvida pela música, à chuva e atolada, lá ia eu em mais um regresso a casa, passei pelo homem da estação que vende coisas habitualmente estranhas...como morangos no inverno e mantas no verão.
subi a escadaria provisória e cansativa, não há meio de acabarem as obras apesar de trabalharem de sol a chuva... no fim e ao cimo das escadas, uma mulher de saia imensa e vermelha dava cor ao cinzento dia que desaguava num cansaço imenso.
... e aqui estou eu a repetir o meu dia nas imagens que me assaltam e nas palavras que já me disse... faz-me lembrar uma vizinha que tive na adolescência, muito boa senhora com uma caracterísitica curiosa no seu discurso, repetia sempre mas sempre, as últimas duas palavras de uma frase, nunca percebi se o fazia para se assegurar do que dizia ou se para ter a certeza que a ouvíamos, mais tarde descobri que seria talvez uma espécie de ecolalia que a senhora teria.
isto para dizer que escrever faz-me lembrar um eco sobre todas as coisas...assim como todas as coisas têm uma razão para nos fazer maior ou menor sentido. há uma doente difícil ou muito difícil digo, que apesar de tudo me faz rir perdidamente no meio da nossa conversa, toda a revolta que traz com a vida, nas palavras que nos quer ferir... desenrolando dissabores e colhendo algumas flores que se escondem num ar rezingão são momentos únicos que jamais se esquece no fim de um dia.

6 comentários:

  1. a chuva tem inspirado textos belíssimos.
    parabéns, Andy.
    beijinho

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  2. O eco das viagens quotidianas feito de pequenos pingos de chuva, rasgos de cor em saias que passam ou sorrisos escondidos sob esgares de dor...
    Belíssimo, Andy!
    Beijinho!

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  3. Textos muito belos, sem dúvida!
    beijinho

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  4. Obg pelas vossas palavras que guardo com tanto carinho.
    Bjinho a todos!

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  5. Apesar de molhada, cansada, não perdeste o sentido das coisas... observaste o vendedor de objectos trocados, a mulher de saia vermelha que alegrava o cinzento do dia, as lembranças da tua vizinha repetitiva e, no fim do dia, o teu albúm estava cheio de vivências, de pedaços de vida dos outros e teus que se cruzaram para fazer a tua página de Hoje!
    Beijocas
    Graça

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  6. O albúm da vida que se preenche dia após dia...
    Obg e bjinho Graça!

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