18.3.10

conto

ilustração de audrey kawasaki
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Havia já dias que a chuva não molhava os campos de verde em flor... e o perfume que levava e trazia o vento era o que marcava o tempo dos dias longos que não morriam com o pôr-do-sol.
As estações marcavam com afinco as terras vermelhas que se abriam em fendas para receber o sol em tempo de chuva... e transpiravam o calor da seiva para receber as chuvas em tempo de sol.
Os pássaros contemplavam o soberano murmurar da natureza e com suaves cantares embalavam o fervor dos dias.
O rosto de Helena tinha a cor das flores rosa e os traços dos sacrifícios da terra... cresceu numa aldeia muito pequena e vivia numa humilde casa que adornava como uma pequena pérola os campos solitários da família mais conhecida da aldeia.
Não havia terras mais vazias de raízes, tubérculos e hortículos que pudessem saciar a fome daquela família... por mais sementes, adubos e até trabalhadores de mãos cheias que acariciassem aquela terra nada fertilizava tais campos virgens. Talvez por isso todas as gentes da aldeia conhecessem os seus sacrifícios e dificuldades e não fosse a tamanha bondade do povo, talvez Helena fosse apenas a memória de um nome...
Desde sempre que Helena falava com as flores que guarneciam a terra mais tímida e lhes pedia frutos doces ou legumes viçosos mas apenas a voz do vento penetrava nos lamentos da terra...
Desde muito pequena que Helena brincava junto aos campos, as personagens das suas histórias eram sempre elementos da natureza que pelas suas mãos abriam emoções e do coração faziam nascer canções que sussurrava ao céu...
Com o tempo Helena crescia e a ligação com a sua família e com tudo o que a rodeava era cada vez mais sincera e genuína... amava com sangue e fogo.
O seu maior sonho era conseguir que aquelas terras se tornassem férteis de alimentos para assim ajudar a sua família que tantas dificuldades viviam.
Tantas tardes sentia a dor da terra... em cada entardecer sem alimento germinado. E nem o sal das suas lágrimas resolvia tal silêncio de campos em flor...
Os seus olhos entardeciam com a tarde e espelhavam as tímidas flores que esperavam um novo dia de esperança...
As flores eram sobretudo amarelas embora junto à casa desabrochavam cor violeta... um perfume único, uma mistura de madressilva e amoras a transpirar de suco.
Em troca de trigo e feijão que os vizinhos por bondade lhes davam, Helena juntava ramos de flores ao som do coração e oferecia-lhes... sentiam-se muito gratificados com tamanha beleza e perfume.
Apesar das dificuldades aquela família tinha conquistado alguma paz que contagiava de certa forma toda a aldeia.
Infelizmente e com o passar de alguns anos, os pais de Helena que já tinham uma saúde frágil, não conseguiram resistir a um Inverno rigoroso, em que nem as flores violeta tinham desabrochado.
Helena chorou dias e dias... sofrida pela falta que os pais lhe faziam e pelo incerto futuro.
O Inverno abrandou e com ele, a sua dor também... a chegada da Primavera trouxe-lhe força interior, as flores nasciam de novo, formando um manto fino amarelo que se estendia desde a humilde casa até à parte mais alta dos campos.
Tamanha felicidade lhe dava aquela visão, que correu com o peito cheio e as lágrimas doces de alegria como se pudesse abraçar cada partícula daqueles campos!
Agarrou a terra, olhou-a e como se decifrasse algum tipo de mensagem, pensou ganhar forças para conseguir colher as tão belas flores que só aquela terra conseguia fazer nascer com um perfume e beleza únicos e tentar vendê-las junto de quem as pudesse comprar.
Todas as manhãs ainda nem o sol nascia, seguia então viagem até à cidade... chegava pela penumbra do dia com o corpo magoado do cansaço mas cheia de sorrisos pelo dever realizado.
Numa caixa de sementes, Helena passou a guardar o pouco dinheiro que ganhava com o seu árduo trabalho, deixou de sonhar com aquilo que os seus campos não lhes sabia dar e passou a rejubilar com cada flor única que nascia.

4 comentários:

  1. bem se vê que és da ilha formosa :) e dona de um coração doce.
    gostei de ler a tua história. ;)
    a tua helena deu a volta por cima que é o que todos nós devemos fazer e teve a capacidade de não perder o sorriso.
    1 beijinho para ti embrulhado num abracinho

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  2. :)obg pelas tuas palavras!
    abracinho

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  3. Gostei muito de ler a tua história!
    Tens uma melodia de palavras encantadora :)

    Um beijinho*

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  4. a delicadeza das pequenas e singelas coisas.

    beijinho!

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