31.3.10

POEMA



Este fim-de-semana que passou deparei-me por mero acaso com um projecto de nome “POEMA” no Convento dos Capuchos em Almada. Sendo este considerado um dos mais belos monumentos de Almada, situa-se na Arriba Fóssil da Costa da Caparica. Foi mandado construir em 1558 por Lourenço Pires de Távora. Após sucessivas transmissões é em 1950 adquirido em ruínas pela Câmara Municipal de Almada. Em 2001 foram realizadas as obras de reconversão e foi neste espaço que teve lugar esta iniciativa no âmbito do projecto “Língua, Cultura e Cidadania” envolvendo uma série de parcerias, as Escolas do Concelho de Almada, Rede de Bibliotecas Escolares assim como outros apoios socioculturais da região.
A ideia era criar um espaço vital de inspiração e julgo ter sido conseguido através de recantos singelos onde a poesia brilhava a cada palavra. Foi a celebração da poesia em diálogo constante com outras expressões artísticas, como a Pintura, a Música, a Dança e a Expressão Dramática.
Com muita pena minha, só tive a possibilidade de ver essa comunhão entre a poesia e a pintura, faltou encantar-me concerteza com as outras formas de expressão que também tanto aprecio.
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De lá veio comigo um poema no sombra da lua
(fotografias de algumas das pinturas expostas)

30.3.10

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basta estar atenta e na rua tanto me prende os olhos, quase que a retina se solta num pensamento a voar e se prende às imagens de uma rua fria e ausente, com uma caminhada de destino certo... a melancolia do fim de dia faz-me parar nas pessoas.
o homem que dorme sobre a vida, encostado ao desajeitado banco traz consigo um violão com que certamente se perde em melodias e sem o qual jamais teria vontade de acordar todos os dias.
a criança de sorriso rosa, mãos delicadas e dançantes como o seu vestido de roda...
a mulher com olhos de vento e lábios serenos perde a memória do horizonte longínquo, para não cair no fim do dia, prende as mãos uma à outra...de dia sussurra palavras ao ouvido dos mais velhos e de noite canta para embalar as crianças.
as árvores cheiram melhor que nunca e talvez colham da terra o que da Primavera há-de vir.
a mulher que borda linhas e flores num pano sem nome, as mãos não tremem, nem hesitam nos pontos e nós que pode dar.
o homem que se perde no andar de uma mulher que passa.
as nuvens que insistem, as músicas que continuam a tocar...

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Há dias de ócio que fazem lembrar aquelas tardes passadas em frente ao mar à espera do momento em que a pele ardesse de calor... passeávamos junto à rebentação das ondas evidenciando com orgulho inconsciente, o corpo cheio de sal e cor de morango... a idade dos cabelos soltos ao sabor dos desejos de adolescente deixam saudades.
A sensação de leveza e os passos soltos de compromissos...
é quase vital voltar a sentir de vez em quando essa sensação, mesmo que ínfima no meio de tantas outras... que se traduzem em “a vida”.
Hoje consigo rir das manhãs passadas no café, a fumar quase ao desafio acabando numa náusea pegada e terminando para mim numa saída fugaz para um jardim de ar puro.
A inocência de que a vida pode ser eternamente um céu aberto e que corremos ao compasso do coração... Hoje pergunto-me, não será afinal o coração o orgão que tenta acompanhar os nossos passos mesmos os mais tempestuosos que até o tempo lhes perde o rasto...
Se é tão bom partir para reavivar sensações também a chegada se revela um doce aconchego. Foi bom celebrar essas sensações contigo...

24.3.10

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Se o nascer de um dia tivesse perfume, escolheria o cheiro dos lírios em flor que gotejam do orvalho mansinho o doce que tocou o néctar.
E se soubesse desenhar um amanhecer, hoje teria sido o sol debaixo da terra com raízes brilhantes até aos primeiros rasgos de água...no profundo e escuro silêncio onde a sede procura a água.
Sob os pés a terra escorregadia temperada pelo sal da terra... e nas profundezas da terra o lume que queima os olhos.
Sim, é preciso ser um pouco louco ou poeta para sentir o dia nascer nas raízes dos pés, sem luz que do céu se revele.
O dia passado e confirmei depois abismada que o pôr-do-sol rasgou o céu com a cor da tranquilidade...

22.3.10

nas nuvens...



um filme cativante que nos faz reflectir sobre alguns aspectos da vida comum... uma comédia/drama com alguma serenidade e não sendo estrondoso é de alguma forma um filme muito agradável!
a história decorre entre viagens, aeroportos e mochilas, fazendo-nos também reflectir sobre a nossa própria "mochila" (os nossos objectos e as pessoas que nos são importantes) ... o que realmente deixaríamos para trás na viagem da vida?

21.3.10

Dia Mundial da Poesia

A Em@ lançou mais um desafio, e em sintonia com o Dia Mundial da Poesia, propôs que os leitores fizessem um post de poesia que posteriormente viria a ser colectivo - Desafio Poético.
Fui vasculhar poemas anteriormente escritos e aqui fica o meu contributo...

no meu céu...
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Os céus cinzentos
Fazem-me aconchegar
No calor dos corações
E pintar a saudade das estrelas

Os céus cinzentos
Fazem-me procurar a musa dos céus
E espelhar-me na sua candura

Os céus cinzentos
Fazem-me volver as marés
E escrever na areia molhada

Os céus que fazem cantar
A voz mais sombria
Onde apenas a luz atrevida
Se solta em plena noite a sussurrar
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Nota: espreitem este Desafio Poético e para quem queira contribuir...

Desafio

A Anita do blog sons do coração propôs um desafio que apela muito aos sentidos, e assim entre compras, cheiros e sorrisos aqui fica uma pequena viagem...

4 lugares para comprar:

  • Papelaria modo - sempre me perdi completamente por papelarias... esta particularmente porque tudo o que lá existe é de um extremo bom gosto, desde material de desenho e pintura, até simples folhas de papel/carta e envelopes com lindos efeitos decorativos, blocos de apontamentos especiais, papel fantasia, etc... a acrescentar a isto tem livros e revistas. Acreditem não é uma simples papelaria/livraria, era capaz de lá ficar horas!
  • A Segurelha - como não podia deixar de ser... sim doces! Mas não são uns simples docinhos, são da e na Madeira que existe esta loja com tanto bom gosto quer no que respeita ao sabor como à forma com que apresentam as suas divinais obras-primas,doces empacotados de uma forma cheia de mimo e requinte! Desde as queijadas, ao bolo e broas de mel, tudo em miniatura também! Quem conseguir resistir que me avise.
  • A Companhia do Campo - esta é uma loja de decoração de interiores, sou perdida por esta loja, no entanto os preços nem sempre são os mais convidativos e a maior parte das vezes entro lá apenas para me inspirar...
  • Acessórios e Companhia - uma loja que alimenta a minha paranóia por pulseiras, brincos e lenços.

4 cheiros:

  • terra molhada
  • bolo acabado de fazer
  • tintas
  • cera
  • petróleo
  • flores
  • euphoria - calvin klein

4 coisas que me fazem sorrir:

  • o sol
  • o sorriso dos meus filhos
  • sensação de paz
  • as palavras

4 blogues a desafiar:

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hoje pelas 8h...

19.3.10

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na água há a imagem de um sorriso num canto dos lábios frios ou traços pela vida talhados ao som do tempo...
não haverá espelho mais fiel
não há imagem distorcida que da água límpida se conte, os dedos quase soltos de frio tocam a superfície de um reflexo que querendo agarrar a sensação se perde nas arestas da vida
onde estão as gotas que caiem sobre a água que hoje ressequida, dos olhos se demoram a cair?
os relâmpagos da alma acalmam na água que do mar doce faz das pedras, palavras, lágrimas e gestos que dançam no ar...

18.3.10

conto

ilustração de audrey kawasaki
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Havia já dias que a chuva não molhava os campos de verde em flor... e o perfume que levava e trazia o vento era o que marcava o tempo dos dias longos que não morriam com o pôr-do-sol.
As estações marcavam com afinco as terras vermelhas que se abriam em fendas para receber o sol em tempo de chuva... e transpiravam o calor da seiva para receber as chuvas em tempo de sol.
Os pássaros contemplavam o soberano murmurar da natureza e com suaves cantares embalavam o fervor dos dias.
O rosto de Helena tinha a cor das flores rosa e os traços dos sacrifícios da terra... cresceu numa aldeia muito pequena e vivia numa humilde casa que adornava como uma pequena pérola os campos solitários da família mais conhecida da aldeia.
Não havia terras mais vazias de raízes, tubérculos e hortículos que pudessem saciar a fome daquela família... por mais sementes, adubos e até trabalhadores de mãos cheias que acariciassem aquela terra nada fertilizava tais campos virgens. Talvez por isso todas as gentes da aldeia conhecessem os seus sacrifícios e dificuldades e não fosse a tamanha bondade do povo, talvez Helena fosse apenas a memória de um nome...
Desde sempre que Helena falava com as flores que guarneciam a terra mais tímida e lhes pedia frutos doces ou legumes viçosos mas apenas a voz do vento penetrava nos lamentos da terra...
Desde muito pequena que Helena brincava junto aos campos, as personagens das suas histórias eram sempre elementos da natureza que pelas suas mãos abriam emoções e do coração faziam nascer canções que sussurrava ao céu...
Com o tempo Helena crescia e a ligação com a sua família e com tudo o que a rodeava era cada vez mais sincera e genuína... amava com sangue e fogo.
O seu maior sonho era conseguir que aquelas terras se tornassem férteis de alimentos para assim ajudar a sua família que tantas dificuldades viviam.
Tantas tardes sentia a dor da terra... em cada entardecer sem alimento germinado. E nem o sal das suas lágrimas resolvia tal silêncio de campos em flor...
Os seus olhos entardeciam com a tarde e espelhavam as tímidas flores que esperavam um novo dia de esperança...
As flores eram sobretudo amarelas embora junto à casa desabrochavam cor violeta... um perfume único, uma mistura de madressilva e amoras a transpirar de suco.
Em troca de trigo e feijão que os vizinhos por bondade lhes davam, Helena juntava ramos de flores ao som do coração e oferecia-lhes... sentiam-se muito gratificados com tamanha beleza e perfume.
Apesar das dificuldades aquela família tinha conquistado alguma paz que contagiava de certa forma toda a aldeia.
Infelizmente e com o passar de alguns anos, os pais de Helena que já tinham uma saúde frágil, não conseguiram resistir a um Inverno rigoroso, em que nem as flores violeta tinham desabrochado.
Helena chorou dias e dias... sofrida pela falta que os pais lhe faziam e pelo incerto futuro.
O Inverno abrandou e com ele, a sua dor também... a chegada da Primavera trouxe-lhe força interior, as flores nasciam de novo, formando um manto fino amarelo que se estendia desde a humilde casa até à parte mais alta dos campos.
Tamanha felicidade lhe dava aquela visão, que correu com o peito cheio e as lágrimas doces de alegria como se pudesse abraçar cada partícula daqueles campos!
Agarrou a terra, olhou-a e como se decifrasse algum tipo de mensagem, pensou ganhar forças para conseguir colher as tão belas flores que só aquela terra conseguia fazer nascer com um perfume e beleza únicos e tentar vendê-las junto de quem as pudesse comprar.
Todas as manhãs ainda nem o sol nascia, seguia então viagem até à cidade... chegava pela penumbra do dia com o corpo magoado do cansaço mas cheia de sorrisos pelo dever realizado.
Numa caixa de sementes, Helena passou a guardar o pouco dinheiro que ganhava com o seu árduo trabalho, deixou de sonhar com aquilo que os seus campos não lhes sabia dar e passou a rejubilar com cada flor única que nascia.

16.3.10

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Parem o desenfreado correr das horas, sosseguem o tremor que das mãos há que afagar o dia... talvez só queira olhar o céu ou sentir um qualquer doce sabor limão e canela num cheiro de flor...
Espera... fechem a janela por instantes que no silêncio quero ficar.
mas não há silêncio que não me fale, como em segredo que não quero ouvir... das palavras que poderia ter dito, do olhar que tivesse entendido, das vozes que deveria ter decifrado...
fechem a janela por favor...
mas não há silêncio nenhum que não me fale, de como melhor poderia ter cuidado e não cuidei... enfim... apenas melhor.
tantas vezes da força que resta do cansaço, desembrulho os afectos que guardo em papel dourado e ofereço com um sorriso, outras vezes... não encontro as mãos para desembrulhar nem o sorriso para oferecer...
permito-me decifrar o suor do querer “ser melhor”... vasculhando o pó dos livros, a janela que não fecha e o silêncio que não acontece...
amanhã será céu de sol?

14.3.10

Aqui está a árvore de que vos falava... esta manhã quis eternizá-la numa imagem por aqui perdida... as primeiras árvores floridas que antecedem uma Primavera são como os raios de sol que despontam numa tímida manhã a acordar...
Só por si as árvores são o refúgio de plantações de prédios que me entristecem o olhar pela monotonia rectangular que se isola em cimento...
As árvores acompanham o sol e a chuva, o vento e a neve e não lhes ficam indiferentes... sobrevivem ou não, em ciclos de frondosas folhas verdes, a nus ramos ou em flor... respiram o doce e o amargo que a natureza lhes oferece.
Quando era miúda adorava desenhá-las, demorava nos pormenores das folhas, mas o que realmente ficava no papel era a raiz que não via mas imaginava...
Não haverá na natureza, nada que transborde maior segurança e força talvez por isso sejam tão inspiradoras...
Há quem diga que abraçando o seu tronco conseguimos absorver parte da sua energia e isso se revelará tão apaziguante...
Só o facto de existirem é um conforto para os olhos...
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Nota: o post anterior tinha uma hiperligação para o sombra da lua

11.3.10

Cranberries. concerto

Ontem os irlandeses, The Cranberries, encheram o Campo Pequeno para mais um concerto. E após uma paragem de seis anos, fizeram os fãs vibrarem com as suas músicas.
"Os Cranberries formaram-se em 1989 e quatro anos depois editaram o primeiro álbum, "Everybody Else Is Doing It, So Why Can?t We?” que se tornou num enorme fenómeno comercial, tendo vendido mais de 5 milhões de cópias, só nos Estados Unidos."
A noite passada provaram que após quase 20 anos de carreira continuam cheios de esplendor e autenticidade.
“Zombie” não sendo a minha preferida, foi um dos momentos mais poderosos da noite, em que o mar de gente se manifestou grandemente!
Na memória ficam “Linger” e “Dreams”, brilhantemente interpretados e assegurando mais uma vez a minha preferência.
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Foram as fotografias possíveis...
:(

8.3.10

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O tempo não espera...
quantas vezes pareço correr atrás das horas desenfreadas de um tempo, em vez de conseguir acompanhá-lo serenamente...
Fico cansada...
Dêem-me um minuto!
Parem os relógios se assim for preciso...que o corpo não alcança aquilo que a voz quer dizer.
E se já corro com os pés abertos e dilacerados! Ainda assim nem a mão agarra os segundos que se desfazem como areia ao vento...
Silêncio por favor....
Na memória dos olhos, soltam-se bolas de sabão... transparentes, coloridas e perfumadas, nasciam num sopro curioso... tão leves e serenos eram esses momentos...
Só um tempo mais...
Passamos a vida a contar os segundos para que no meio de tudo haja tempo para ter tempo...
Os dias fogem e as mãos ficam vazias ou cheias...
Lembro-me das mãos cheias da minha avó... tudo abraçava e a tudo chegava... até quando bordava a fios de cores ou simples tentava deslindar os mistérios e tonalidades da vida, linhas soltas ou emaranhadas, relevos de flores das flores da vida... suspiros de incertezas em cada ponto que no tecido a agulha se descobria... eu contemplava a serenidade com que a seu tempo surgiam sombras e desenhos de uma história declamada em silêncio.
Tentei me aproximar de tamanha sensação de graça enquanto decalcava traços a carvão numa folha branca, traços sem forma ou afigurando um estado de alma, traços leves ou fortes...
Na verdade passo o tempo a tentar através das mãos encontrar um ponto de entendimento com a vida... as mãos que criam, tocam, escrevem, sonham, amparam, largam...
entre o tempo que deixei e o que anseio acompanhar ...

4.3.10

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Ontem já senti um pormenor e outro de Primavera balbuciado num sorriso de céu...apesar disso alguém dizia “o dia está triste como a noite”...
parei os olhos num pássaro que rondava a casa antiga à beira de estrada com uma capela ao lado... não conseguia perder de vista as asas soltas beijadas pelo rasgo de céu que iluminava a humidade dos olhos ...
Sentia as pernas cansadas assim como hoje... aquele momento aliviara-me o peso que às vezes se apodera dos ombros das pessoas e as faz andar de olhos postos no chão, num desacordar de dia, presas ao escuro frio da noite... é verdade, às vezes falta-nos o chão e se calhar com medo de até isso perder, o olhar devora-o...
À porta da casa antiga, estava um homem de pouca idade, de olhos fixos na porta de madeira, desesperava pelo momento em que esta se abrisse...quase se sentia o nervosismo que minava os gestos e afogava a voz... se perto estivesse até talvez lhe ouvisse o coração...
Fechei a porta deste momento e fui trabalhar... o dia passou apressado num toque de mão em mão, de histórias de vida, de olhares frágeis e peles gastas pelo embate do tempo que o tempo não pára...
as pernas resistiram e as mãos também, quando saí, olhei a porta e lembrei-me do homem... tomara que a porta se tivesse aberto...

1.3.10

Eu e a comida

Nunca escondi ser completamente apaixonada pelos sabores que se adivinham num perfume que surge de uma combinação de alimentos... desde sempre que completava um qualquer acontecimento com um colorido sabor, nem que fosse um simples estar no regaço do sofá num dia de pouco fazer (onde andam esses dias?) a devorar filmes e bolachas de chocolate... ai, só a memória me traz saudade!
E quantas vezes o desejo de sentir o cheiro a bolo quente pela casa é também uma necessidade que vai muito para além das ávidas papilas gustativas que se encharcam de saliva mas também um acender de memórias que trazem um aconchego particular muito provavelmente difícil de caracterizar ...
Com o tempo passei de uma simples consumidora e apreciadora para mais tarde quase obrigatoriamente ter que também confeccionar, como é natural... e sem dúvida que há dias mais inspiradores que outros... mas a realidade é que para cozinhar não podemos esperar pelos dias em que acorda nas mãos a vontade de o fazer...
E sem dúvida que os melhores sabores resultam de alguma intuição, sensibilidade e bom senso...como tudo na vida! :)
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