3.2.10

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Fugindo do frio e hoje da chuva outra vez, entro no comboio que quase me leva até casa.
Carregada de cansaço encaro com a minha sombra nas portadas baças do comboio e agradeço esta pouca nitidez de imagem para não ver a cor do cansaço...
A roupa esconde o corpo a tremer de frio e as mãos refugiam-se nos bolsos desconfortáveis e vazios...
A memória do dia em imagens soltas e coloridas aparecem como um filme sem personagem principal ou argumento definido... recordo a história de amor que a D.H. de 94 anos me contou num sorriso perdido dos seus ainda delicados lábios rosa... soltava-se em fio de uns olhos cor de mar calmo.
A idade não lhe levara a beleza nem a memória de um amor... acompanhava o falar com um movimento trémulo de mãos e um olhar perdido de saudades.
Os sons agudos e monótonos do comboio ressoam para além da música que oiço, apresso-me a perceber que já não tremo de frio.
Sinto as pernas fraquejar de estar em pé, chego ao destino... e apesar dos músculos pesados, o sangue flui com vontade de andar mais e mais, mal saio do comboio...
Sinto os lábios da chuva ao de leve na pele a descoberto e inebriada pela música sigo como se fossem passos de dança... a coreografia do regresso a casa.

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