25.2.10

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O dia sobe sobre os surdos ruídos da casa
sobre os calendários que ninguém teve tempo de
tirar das paredes e agora prolongam nos nossos olhos
paisagens de rios e açudes que nunca
existiram em lado nenhum a não ser
na saudade que alguém há-de ter deles
pelo meio de uma infância de aldeias
morrendo ao sol

e abrimos os livros que tínhamos deixado
nas estantes cobertas de silêncio e
retratos de primos mortos de tuberculose
e em cada som que ouvimos há uma lembrança
de amoras quentes daquelas que
em criança largávamos sobre
a grande mesa da cozinha

e era então que as velhas gritavam
que aquilo nos ia fazer muito mal porque nunca
se comem amoras quentes do sol
mas o sumo escorria da nossa boca
como agora escorre a noite pelas paredes
desta casa que a tua ausência torna
subitamente enorme

e eu queria poder ainda agora explicar
às velhas ancoradas na mesa da cozinha
o que elas nunca foram capazes de entender:
que é o gelo e não o sol que faz
apodrecer o nosso corpo

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Alice Vieira
excerto do livro "O que dói às aves"

24.2.10

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Que saudades de uma janela
a antecipar o sol quente...

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foi tão bom andar a pé fingindo não ter destino... só a mala a tiracolo me denunciava...
abri a porta dos pulmões e com um fechar de olhos enchi-me da brisa que vinha lá do rio, a nostalgia do céu, dava cor parda ao coração...
andar sem destino fez justiça às minhas botas quase gastas, cor de terra e selvagens...
como adoro andar de botas!
deixei-me depois levar no embalo do comboio com destino...

23.2.10

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Talvez que as gaivotas em terra bramindo já não tenham o mesmo doce voar... e o céu outrora de silêncio, grite agora para sempre a memória de nuvens que de tão negras... fosse permitido perguntar com os lábios da inocência... porquê? fosse fácil perceber a água devoradora em seus sinais vis... saberia aos olhos da distância, estender a mão em forma de alento a um céu perdido, a um sopro de desalento... saberia engolir a fúria num desespero que da água me lembro... só me resta acreditar que tudo voltará a tocar ao de leve as asas de luz e em tom perdido de saudade, contemplar as memórias que em luas brancas me cercam, nos lábios as flores em manhã de orvalho, nos olhos a terra sedenta de vida, nas mãos o mar azul que na pele deixou o sal...

20.2.10

Tempestade na Madeira

Tempestade na Madeira que teve início esta madrugada mas sobretudo por volta das 10h da manhã.
As chuvas em dilúvio invadiram brutalmente o centro do Funchal, a ribeira galgou todas as protecções, apoderando-se de estradas, casas e estabelecimentos comerciais.
O aeroporto está encerrado, estão diversas estradas intransitáveis.
Foi feito apelo a todos os profissionais de saúde para se dirigirem ao Hospital, assinalados pelo menos 5 mortos, durante esta manhã.
Os Bombeiros estão em plena acção sobretudo no Funchal, a Força aérea prepara-se para retirar dezenas de pessoas da zona da Ribeira Brava, foram estas duas zonas da ilha as mais dramaticamente afectadas.
As imagens das notícias falam por si.
As comunicações estão muito limitadas o que prejudica o possível apoio à população.
Segundo a metereologia a fase pior da tempestade já passou.
Ficam no entanto por resolver todos os problemas inerentes a uma situação como esta...
aguardo notícias...

Desejo que a minha família esteja bem, assim como, que toda a Ilha se recomponha rapidamente.
não tenho conseguido pôr títulos aos escritos ... :-(

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Tão bom sentir o quente do tecido que se prolonga punho abaixo e guarda a mão de frio...as janelas já morrem de condensação, num tempo que escorre, gotejando sorrisos e horas que se perdem na transparência de um qualquer vidral debruado a fios de água...
a letargia curva-se sobre o ventre liso e cansado, desabrochando em escritos no vazio...
a rua fala-me dos dias que passaram, dos que virão num grito de sol escondido...as esquinas a latejar o desenfreado tempo...
o tempo que dá os minutos de luz à vida.
esse tempo...

18.2.10

"Juventude" de Eugénio de Andrade na sombra da lua

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A madrugada tem uma sensação de puro conforto... da luz que do dia secretamente se aproxima... ao ouvido nos segreda que ainda há tempo para o pensamento voar nas asas do sonho... e no mar de lençóis não há deslizar de pés mais suave que este, que saboreia uns últimos minutos de repouso.
"chávena de chá"
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Columbano Bordalo Pinheiro

17.2.10

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A Lua que me perdoe mas hoje não há palavras doces que resistam a uma semana como a que tenho tido... nada do que aqui vou escrever seria motivo para um post, pelo que este discurso será fútil, simplesmente desnecessário, inútil e sem princípio nem fim...
Poderia agilmente e de forma assertiva falar sobre a imperfeição do Corpo e ficaria o meu desabafo escrito de forma elegante... mas hoje apetece-me se calhar descontrair e escrever sem meios termos, em tom de livre expressão...
Isto tudo para dizer que tenho passado a semana a amargar no dentista, sim... esse mal/bem necessário! (eu bem disse que seria um discurso fútil...)
Um abcesso que se repete, tem me tirado a alegria dos dias e exageros à parte, nem degustar os alimentos com prazer me tem sido possível... nem uma cremosa taça de flocos de aveia e morangos frescos consegui saborear esta manhã com o prazer que me teria sido habitual... digamos que sendo a primeira vez que isto me acontece, tem me dado que pensar e atormentar...
E então na verdade, todo aquele ambiente da sala de dentista é simplesmente aterrorizante... desde aquela falsa cadeira que nos aparenta poder passar ali um tempinho confortável, até os sons, odores e sabores, terríveis! Hoje senti-me ficar sem “gota de sangue” tais eram os nervos... quase me senti desmaiar na própria cadeira falsa...
no meio de todo aquele sofrimento, ainda têm a frieza de me fazerem perguntas com todos aqueles apetrechos dentro da minha boca, a sonda de sucção e seja lá mais o que for... ficam realmente à espera de resposta, isso é que me surpreende! E eu respondo com as forças que me restam e com o esforço de quem tem uma qualquer coisa na boca que dificulta qualquer tipo de comunicação verbal.... ficam indiferentes, sem dó nem piedade!
Estranho caso o meu... sofro realmente com isto, é quase fobia.
Bem, só desejo que este fado acabe rapidamente, sim porque o fim ainda nem se avista!

14.2.10

Nove



De:Rob Marshall. Musical/Romance
Com:Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson

Não gostei do argumento... valeu pelas coreografias!

No filme, Marion Cotillard " is the best"!

13.2.10

No teu deserto

"Às vezes, lá onde moro,
fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto
e oiço o tempo passar,
mas não me angustia mais:
eu sei que é justo e que tudo o resto é falso."
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Miguel Sousa Tavares
retirado do livro
"No teu deserto"
Quase romance

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Depois de um dia frio que até parecia pesar o ar de tão densamente gelado... o sol voltou e já aqueceu ao de leve a varanda onde poderiam viver flores...o brilho do sol já se estendeu timidamente pelas paredes frias da casa.
Um pouco de dedicação à desordem da casa e o ar toma uma tranquilidade que os olhos também precisam...
A perspectiva de uns dias de ócio mesmo que apenas ilusão é de alguma tão reconfortante...

12.2.10

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... de José Brito

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Quase sentada em poltronas de folhas por escrever, ainda o cansaço por vencer e o silêncio por descrever...
ainda hoje desejei estar no jardim ou num breve momento presa a uma qualquer sombra de descanso...
junto ao peito guardei a força, levei-a por entre as horas que foram minguando com o dia...
e esmorecendo com o corpo...
e é no corpo que me demoro, e é este corpo que entendo e com silêncio lhe respondo...
aquele que nos sentamos na berma da noite e tentamos decifrar com o olhar, a ouvir, a esbracejar...
a noite morre de frio... e lá fora a rua adormeceu de passos e de luz.

10.2.10

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Acordar lânguido...
lá fora já é dia e a noite não espera que o corpo se refaça das suas lamentações.
Neste semi-acordar, veio á memória as tardes quentes de verão... em que desfolhávamos canas de açúcar e com tanta avidez mordíamos até sentir o suco fresco e doce que nos acalmava os sentidos...
Com a mesma vontade sentia o perfume das plantas agrestes que transpiravam ao sol e bebia daquele azul mar imenso que emoldurava o momento...

8.2.10

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olha como quase não tenho escrito...
como o silêncio caminha por mar dentro
intumescendo as ondas para desaguarem
em palavras tempestuosas sobre o areal
faminto de água...
reparaste que também hoje as chuvas caíram?
talvez confessem ao mar
o sabor das suas lágrimas
num dia em que o coração sorriu

viste que ao fundo do corredor coloquei
o quadro do barco atracado em mar calmo?
deixei os dois vasos de plantas verdes
por baixo...ficou perfeito.

5.2.10

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Tentei soltar o cabelo ao vento e senti-lo ondulante e livre percorrer os dedos das minhas mãos... tentei sentir o vento no rosto e concentrar tudo nas sensações mais apaziguantes de que a minha alma se poderia alimentar...
atrevi-me a soltar a voz que quase sem leve expressão mais parecia um sussurrar sem fundo nem retorno...
dei por mim a tentar decifrar o sal que escorria em ramalhetes indiscretos como flores que não sabem parar de crescer quando já a semente germina em grande fulgor...

3.2.10

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Fugindo do frio e hoje da chuva outra vez, entro no comboio que quase me leva até casa.
Carregada de cansaço encaro com a minha sombra nas portadas baças do comboio e agradeço esta pouca nitidez de imagem para não ver a cor do cansaço...
A roupa esconde o corpo a tremer de frio e as mãos refugiam-se nos bolsos desconfortáveis e vazios...
A memória do dia em imagens soltas e coloridas aparecem como um filme sem personagem principal ou argumento definido... recordo a história de amor que a D.H. de 94 anos me contou num sorriso perdido dos seus ainda delicados lábios rosa... soltava-se em fio de uns olhos cor de mar calmo.
A idade não lhe levara a beleza nem a memória de um amor... acompanhava o falar com um movimento trémulo de mãos e um olhar perdido de saudades.
Os sons agudos e monótonos do comboio ressoam para além da música que oiço, apresso-me a perceber que já não tremo de frio.
Sinto as pernas fraquejar de estar em pé, chego ao destino... e apesar dos músculos pesados, o sangue flui com vontade de andar mais e mais, mal saio do comboio...
Sinto os lábios da chuva ao de leve na pele a descoberto e inebriada pela música sigo como se fossem passos de dança... a coreografia do regresso a casa.

The Cure

1.2.10

Amiga poderosa

A Em@ dona de um blog onde me perco por entre lindíssimas obras de arte... ofereceu-me este prémio "Amiga poderosa", o qual recebi com grande honra, obg Em@!

Tem como regras:
  • postar o selo, o nome e o link do blog que ofereceu
  • escolher 5 amigas para nós poderosas e avisá-las
  • completar a frase:

Sou poderosa porque...

Ora bem! Faltando-me palavras e amigas tb blogueiras (Em@, não te posso retribuir, pois não? eheheh) ... aqui fica o possível...

Ofereço este prémio:

Lita do blog Pequenos Pormenores

Mira do blog Carpe Diem

e a todas as mulheres que por aqui passam, sintam-no vosso!

Sou poderosa... talvez porque nas situações em que parece já não existir forças para continuar, há sempre algo que faz vislumbrar um sorriso. Quanto mais não seja o sol que toca a pele, as árvores que transbordam segurança, o mar que embala e a música que como eco já faz parte de mim...

Bjinhos a todos e em momentos difíceis... talvez olhando para as coisas simples consigamos ver com mais clareza tudo o resto!

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Ao fim da tarde a cirandar à volta de retalhos e capítulos de vida, encontrei o meu Diário, aquele onde escrevia quando tinha os meus dezasseis anos... tenho sempre a mesma reacção quando o revejo... de surpresa e entusiasmo como se estivesse a olhar para um pequeno tesouro... depois volto involuntariamente a perdê-lo de vista por um tempo, talvez para ser sempre algo especial, desfolhá-lo...
Há sempre um mistério a desvendar com qualquer Diário... a chave pequenina tem um grande simbolismo e naquela altura mais ainda, tinha uma magia única...
Os Diários têm quase sempre um diálogo inquietante com "ele-diário", que personifica algumas vezes uma pessoa que realmente nos ouve e compreende... é curioso a proximidade que se estabelece com folhas vazias que nos chamam à razão, que nos dão alento e até coragem para dias que se prevêem difíceis... e que até nos fazem confessar tudo até ao mais ínfimo pormenor.
É quase inevitável olhar para o que escrevia com a sobrancelha torcida e um sorriso a despontar em pura gargalhada!
Não resisto deixar aqui um bocadinho deste pequeno Diário...
divirtam-se também...
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Começa a noite...
É quase sempre tão vazia!
É aquilo a que se pode chamar... o nada.
E o nada assusta...
Mas se eu quiser este nada pode ser tudo!
Vagueio em sonhos ...
Transformo o nada, no todo mais belo que já alguma vez vivi!
É apaixonante!
Vejo uma extensa planície verde que parece nunca mais ter fim.
Neste verde florescem flores brancas.
Deito-me...
Todo o meu corpo é aquecido por belos raios de sol.
Há música no meu coração.
Os meus olhos sorriem como nunca!
Aqui nada, nem ninguém me poderá tirar toda esta loucura!