19.1.10

coisas da vida ...

Há já alguns dias que as palavras não nascem com a mesma fluidez e descontracção...por mais que tente não tenho conseguido ter a mesma disponibilidade de pensamento... a minha rotina de trabalho que já me era relaxante e confortável, foi alterada para um ritmo mais intenso, cheio de desafios e com diversos momentos de teste aos meus próprios limites... sim, poderá ser aliciante à primeira vista, mas uma mudança tem sempre a importância e dimensão do que isso implica exterior e interiormente...
Não fosse a Em@ pedir para dar alguma forma de apoio a alguém que ultrapassa uma fase difícil de doença, talvez eu não me tivesse lançado a escrever este desabafo...
Na verdade... e só após um ano que aqui escrevo, falo hoje um pouco sobre o que faço...nunca achei relevante, na medida que antes de ser enfermeira, sou acima de tudo uma pessoa, igual a tantas outras, como é óbvio... e é sempre nessa perspectiva que escrevo... e se tantas vezes aqui, quero fugir um pouco àquilo que se passa no meu dia-a-dia, hoje tudo me foge para aí... talvez a Em@ tenha tocado na “ferida”...
A enfermagem surge na minha vida, após deixar de lado uma área totalmente distinta mas que por várias razões me dava muitas incertezas quando mentalmente me projectava no futuro...
A procura nasceu da curiosidade pela área de saúde mas sobretudo pelo “gostar de chegar até às pessoas”...
Bem cedo, enquanto o curso se afigurava percebi que iria ser mais árduo do que imaginaria um dia. Não que não tivesse gostado do curso, pelo contrário gostei muito, mas porque reconheci que não conseguia sair ilesa no meu contacto com as pessoas que sofriam física e/ou psicologicamente... levava tudo na pele e nas veias que me percorriam o corpo... embrenhava-me de tal forma sem me dar conta, no historial de quem cuidava, no corpo que tocava, no olhar que decifrava e... é verdade que ainda hoje passados quase 15 anos me lembro do meu primeiro doente enquanto estagiária, da vivacidade possível com que chegou ao serviço de medicina, de pormenores de frases que trocámos, e do susto interior que foi vê-lo escalar o inevitável desfecho da situação que culminou numa manhã fria de Outono. Ainda guardo na memória o olhar doce de uma criança que cuidei num serviço de oncologia...e tantas vezes tento afastar as imagens do que foi vivenciar por momentos uma criança em fase terminal...
Não foi de ânimo leve que continuei a minha caminhada no curso e posteriormente nesta profissão, foi tendo a noção que iria crescer muito interiormente e iria ajudar de alguma forma quem por mim passasse...
Julgo ter tido muita sorte com as professoras com que tive oportunidade de aprender e "beber" das suas sabedorias interiores...tinha aulas de puro encantamento.
Talvez por não me ter sido fácil psicologicamente estagiar em Hospital, escolhi mais tarde a área de Cuidados de Saúde Primários que incide sobretudo na educação para a saúde como forma de prevenir a doença...
Por ter tanto respeito pela minha profissão e saber o quanto dói tantas e tantas vezes...abomino a imagem vazia e sexy que tantas vezes a sociedade transporta para as enfermeiras. Nem sempre reconhecida e valorizada no melhor sentido... (desculpem-me este à parte)
Por tudo isto, as minhas palavras para quem sofre neste momento um momento de doença... é sobretudo um afago de mão e um olhar nos olhos, dizendo muita coragem e muita esperança no seu próprio corpo e acima de tudo na Vida! Haverá dias em que o sol brilhará na sua grandiosa plenitude, outros em que um simples olhar valerá ouro ou uma simples palavra será o caminho para tantas outras... as pequenas vitórias serão grandes vitórias se as juntarmos todas numa só... assim como o amor que nos agarra à vida será talvez a força para continuar a lutar...
Um beijinho mto especial

4 comentários:

  1. Andy:
    Repito o que escrevi no comentário que deixei no meu blogue, em resposta ao teu recado à Zé.
    Cada vez gosto mais de conhecer a Pessoa que há em ti.
    Beijinho grande e força aí,Miga!
    Vocês enfrmeiros têm tido um calvário idêntico ao nosso com a tutela. ;)

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  2. Admiro muito a tua profissão.É necessária muita força interior e muita sensibilidade para lidar com certos doentes, muitos deles em fase terminal.
    Beijinhos

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  3. Um desabafo cinzelado com a coragem.
    Pois não dias de sol e chuva?... Então e os corações não são habitados por recantos de luz e de sombra?...
    Um abraço!

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  4. Obg pelas vossas palavras, são me mto importantes!
    Bjs!

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