29.1.10

"clarinha sentia-se bem consigo mesma mas, para ser todavia feliz, pensou em nunca se entregar a um homem. encostada à parede da sua casa, como estava quando o sol se pôs, decidiu conservar para sempre aquela calma, um sossego em cada coisa, cada coisa sob sua decisão e só a si obedecendo. dizia, no entanto, que era mulher de muita mantença, era expressão de dizer que muito lhe faltava e lhe dava avidez de o conseguir. sim, a cada dia lutava por quanto lhe aprouvesse, numa satisfação bastante, porque se bastava com muito e sentia até orgulho nisso. e mais dizia, não me abéce comer sono, sou mais dada a estar acordada e sustentar-me das boas ideias da terra. os morangos eram das melhores ideias que a terra podia ter, e clarinha deitava-lhes açucar e engordava à força de tanto os comer. e voltava a dizer, a mim só me abéce isto, quilos de morangos a embelezarem-me os interiores. depois, fechava a boca gulosa, sorria, e ficava bojuda de sol, tanta luz irradiava da sua satisfação.
...
atirava-se para trás na relva densamente verde. no fim de tarde apaziguador o calor tornava o verão benigno, todo o seu corpo recebia o tempo, todo o seu corpo sentia o tempo, mais nada lhe faltaria sob aquela cor parda espalhada por todo o lado. olhava os campos, os cultivados e os de velho, pensava quando seria vez de voltar a plantar em cada lugar..."
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valter hugo mãe
excerto do conto "os campos de velho"

28.1.10

katie Melua

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Os dias suavemente mais longos estendem-se sobre o horizonte cheio de luz...
de saudades de azul sem nuvens, demoro os olhos nesse imenso tanto que me acolhe os sentidos atrás de uma doce janela que gentilmente me abafa do frio imenso que arde a pele.
Os dias passam numa rapidez que nem dá o tempo necessário para o pensamento repousar.
Há minha volta olhares apelativos, vozes arrastadas, corpos envelhecidos numa comovente fragilidade que me leva o pensamento para longe...
Haverá palavra que lhes fique e acalme os dias que sobraram dos outros dias?
Ficará algum gesto na memória do corpo? ... que de memória apenas a longínqua, perdura nas linhas decalcadas da pele em trilhos imensos.
Dos passos trémulos há uma segurança oculta que expressam no olhar franco e sincero de quem não precisa contornar emoções...
um sorriso a despontar de uma janela fica sempre à espreita e no pôr-do-sol o apaziguar de um dia...

24.1.10

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Era um caminho tranquilo... o mesmo não se poderia dizer do meu coração que ávido de dias cheios, respirava imensamente o tempo, o sol e as flores... e num abraço profundo, o dia afigurava-se num contentamento pueril de quem não sabe prever a sombra dos dias...
E em cada passada larga perfumada pelas flores, umas brancas sem nunca lhes ter sabido o nome, outras rosa flor, recostadas nos murais... enchia o peito de tudo o que o corpo sabia para vencer o dia...
Não me cansava... além de ser em plano chão, também não sabia da existência desse verbo...
Conhecia de antemão os desconhecidos que encontrava em cada curva, as pedras, os muros que escondiam as casas de um sonho, os cães que ladravam em desvario...
E à aproximação, fazia-me de passadas pequenas e um formigueiro no estômago, quase um rubor no rosto de um coração em sobressalto... em frente, era a única palavra de ordem e assim era o acordar dos dias...

22.1.10

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Deixei o caderno aberto sobre a mesa
cheio de folhas por escrever
talvez os lábios da noite aflorassem
uma quase oração
que para mim fosse
ou que de mim crescesse...

21.1.10

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Arrancasse eu as vestes do cansaço que de cores tempestivas se agarram à pele... silenciaria os queixumes que se desenham num papel...
papel sem voz... guarda o que das palavras fica por dizer, que das mãos uma escultura faria nascer...

19.1.10

coisas da vida ...

Há já alguns dias que as palavras não nascem com a mesma fluidez e descontracção...por mais que tente não tenho conseguido ter a mesma disponibilidade de pensamento... a minha rotina de trabalho que já me era relaxante e confortável, foi alterada para um ritmo mais intenso, cheio de desafios e com diversos momentos de teste aos meus próprios limites... sim, poderá ser aliciante à primeira vista, mas uma mudança tem sempre a importância e dimensão do que isso implica exterior e interiormente...
Não fosse a Em@ pedir para dar alguma forma de apoio a alguém que ultrapassa uma fase difícil de doença, talvez eu não me tivesse lançado a escrever este desabafo...
Na verdade... e só após um ano que aqui escrevo, falo hoje um pouco sobre o que faço...nunca achei relevante, na medida que antes de ser enfermeira, sou acima de tudo uma pessoa, igual a tantas outras, como é óbvio... e é sempre nessa perspectiva que escrevo... e se tantas vezes aqui, quero fugir um pouco àquilo que se passa no meu dia-a-dia, hoje tudo me foge para aí... talvez a Em@ tenha tocado na “ferida”...
A enfermagem surge na minha vida, após deixar de lado uma área totalmente distinta mas que por várias razões me dava muitas incertezas quando mentalmente me projectava no futuro...
A procura nasceu da curiosidade pela área de saúde mas sobretudo pelo “gostar de chegar até às pessoas”...
Bem cedo, enquanto o curso se afigurava percebi que iria ser mais árduo do que imaginaria um dia. Não que não tivesse gostado do curso, pelo contrário gostei muito, mas porque reconheci que não conseguia sair ilesa no meu contacto com as pessoas que sofriam física e/ou psicologicamente... levava tudo na pele e nas veias que me percorriam o corpo... embrenhava-me de tal forma sem me dar conta, no historial de quem cuidava, no corpo que tocava, no olhar que decifrava e... é verdade que ainda hoje passados quase 15 anos me lembro do meu primeiro doente enquanto estagiária, da vivacidade possível com que chegou ao serviço de medicina, de pormenores de frases que trocámos, e do susto interior que foi vê-lo escalar o inevitável desfecho da situação que culminou numa manhã fria de Outono. Ainda guardo na memória o olhar doce de uma criança que cuidei num serviço de oncologia...e tantas vezes tento afastar as imagens do que foi vivenciar por momentos uma criança em fase terminal...
Não foi de ânimo leve que continuei a minha caminhada no curso e posteriormente nesta profissão, foi tendo a noção que iria crescer muito interiormente e iria ajudar de alguma forma quem por mim passasse...
Julgo ter tido muita sorte com as professoras com que tive oportunidade de aprender e "beber" das suas sabedorias interiores...tinha aulas de puro encantamento.
Talvez por não me ter sido fácil psicologicamente estagiar em Hospital, escolhi mais tarde a área de Cuidados de Saúde Primários que incide sobretudo na educação para a saúde como forma de prevenir a doença...
Por ter tanto respeito pela minha profissão e saber o quanto dói tantas e tantas vezes...abomino a imagem vazia e sexy que tantas vezes a sociedade transporta para as enfermeiras. Nem sempre reconhecida e valorizada no melhor sentido... (desculpem-me este à parte)
Por tudo isto, as minhas palavras para quem sofre neste momento um momento de doença... é sobretudo um afago de mão e um olhar nos olhos, dizendo muita coragem e muita esperança no seu próprio corpo e acima de tudo na Vida! Haverá dias em que o sol brilhará na sua grandiosa plenitude, outros em que um simples olhar valerá ouro ou uma simples palavra será o caminho para tantas outras... as pequenas vitórias serão grandes vitórias se as juntarmos todas numa só... assim como o amor que nos agarra à vida será talvez a força para continuar a lutar...
Um beijinho mto especial

16.1.10

Klimt

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Cheguei ao Rossio e a magia aconteceu... na verdade, estive a escassos pretextos de não ir, tivesse o corpo se rendido ao cansaço e à chuva...
Mal saí da estação do Rossio senti o abraço da cidade...
As luzes quentes a contrastar com o frio e a chuva leve e certeira, mais pareciam o sol da noite, que banhava as ruas molhadas e a arquitectura da cidade...
Mesmo ao lado, o Teatro D.Maria II projectava luzes, imagens e sons poderosos para o exterior... que completava o encantamento do momento.
Os candeeiros adornavam tamanho fervilhar de anoitecer ... de olhos postos no céu senti a água que leve caía sobre aquela noite...
Se de dia a cidade transpira confusão, aquele momento era uma serenidade vivida, de pessoas tranquilas em vagarosas passadas... em cada pedaço de chão, encontrava uma história... o homem que acariciava o rosto da mulher que chorava, o homem solitário à chuva, a mulher gótica de longos cabelos pretos, as conversas de rua, os grupos...
por fim, o restaurante onde se falava e comia italiano, cheio de flores, acolhedor, com relógios de parede onde me perdi mais na sua própria beleza, do que propriamente no mistério do tempo que passava... os risos, as conversas, os silêncios, os amigos... tudo regado com o tempero e ambiente Italiano!
À saída... “ciao ragazzas”!

Sade

14.1.10

Tia Suzana, Meu Amor

"Via-a a aceitar com alegria, o sol e a chuva, os bons e os maus ventos, só porque saíam assim da natureza, tal e qual como ela fora feita. Pensei como gostava de flores e via-a de luvas, de sacho pequeno, ancinho e tesoura de podar, naquele jardim estendido por detrás da fachada fidalga da casa do fundo da rua, entre as áleas de camélias e o cheiro do limonete, a tratar dos malmequeres, dos jarros e dos lírios, que se seguiam pela porta dos canteiros."

António Alçada Baptista

13.1.10

Janela


Tenho uma janela no meu quintal

é feita de paredes de sonho
mas está lá... de pedra e cal
é a parte mais bonita e invisível
do meu quintal
tenho passado os dias
a descobrir as cores
que se pintam nestas vidraças
puxo as portadas
para dentro
e assim não oiço
os murmurares das ruas
só me deleito a ver a dança
das flores e seus perfumes...
quem de fora vê o quintal
e a janela fechada
pensa que não mora ali viv’alma ...
apenas os pássaros
e as coisas mais simples
pressentem o quintal...
também gosto de abrir as portadas
as flores beijam o sol
e bebem da chuva


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"Sinfonia Azul"
Autor: António Carneiro (1872-1930)

12.1.10

mar

Não sei o que do mar ficou em mim... se mar revolto que traz na espuma as armas que ferem... se doce brisa que embala a mão que toca... se a fragilidade translúcida da água...
na imensidão que o olhar alcança, na inquietante vastidão onde o sol se põe e a lua começa, há a linguagem das águas profundas, o murmurar da maresia sem fim nem agonia...
não sei se me encontro no olhar que viaja pelas águas e toca o horizonte, se quando o sal toca a pele...e o arrasto comigo, ou no profundo mar onde só o meu pensamento mergulha...
Num vai - vem que leva e trás histórias de encantar, deixo-me levar nesses cantos de sereias adormecidas que enfeitiçam quando a noite cai... deixam memórias nas encostas da vida e nas dunas que adornam o coração de uma qualquer praia...
O dia que amanhece numa areia dourada, com subtis pegadas de caminhos percorridos e outros tantos que nascem como flores em manhãs de Primavera...

11.1.10

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sair de casa apenas e quando o dia
começar amanhã ...
a angústia de um domingo,
faz querer esperar o tempo,
retardar os movimentos,
na lentidão que o corpo reconhece
como a alma num desassossego
de fim de dia,
a casa descansa de um dia perfumado
por sabores,
as coisas estão no sítio onde pouco tempo
demorarão a estar...
as paredes tocam a melodia de descanso,
lá fora tudo igual,
amanhã o inevitável...

7.1.10

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Espreitei quase a medo por entre as nuvens de espesso algodão que teimam em desabar na forma de chuvas mil... os meus olhos já encheram da miragem de céu denso que corta o respirar das emoções... que saudades do livre inspirar de um azul sem medida que sacia as palavras e até o gesto...
... apesar das ruas cinzentas, os caminhos continuam lá... as árvores cansadas de frio e água, estão lá, desfolhadas e mais pequenas aos meus olhos...
porventura uma atmosfera sombria fará brilhar por baixo da chuva ...
a verdade é que a vida continua... a vida diária, terrena, aquela que nos traz à memória que parar por instantes seria o silêncio perfeito para as mentes cansadas... exaustas já do maior cansaço, que nem as palavras já o conseguem contar na maior franqueza física.
No meio da monótona atmosfera os meus olhos pararam nos morangos, sim morangos que o senhor na rua vendia... demorei-me a relembrar aquele sabor que suculento de sumo se tornaria na minha boca, num dia de sol morno...

3.1.10

...para reflectir

Texto muito bem sugerido pela minha amiga Mira, obg Mirocas!

"Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, o meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas as verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a que pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo o que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início a minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar a reviver o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, mantenho-me no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!"

Charles Chaplin


Este texto tem sem dúvida belíssimas e saudáveis verdades...
formas de estarmos em sintonia com o nosso próprio Eu e com a vida.
Acredito ainda que, cada um de nós desenhe e construa na sua aprendizagem de vida...
as suas únicas e por isso igualmente belas e grandiosas verdades.
"just smile!"

2.1.10

Julie & Julia



Uma comédia leve que apela à boa disposição e aos sabores...
O sonho de duas mulheres tornado realidade.

1.1.10

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E como sempre foi assim no meu Funchal...
sempre inesquecível presumo... pena não ver e ouvir ao vivo e a cores!
Aqui fica a minha entrada explosiva no Ano 2010, aqui na" Lua"! :)