7.12.09

uma nuvem...

...
"Uma nuvem de fumo azul sobe muito lentamente. O quarto está cheio de livros empilhados nas mesas, na estante e mesmo nas cadeiras. Livros de capas amarelas e brancas e cinzentas. Alguns dobrados ao meio, mostram a cor de trigo do papel e o desenho contínuo e cerrado das letras.
O quarto tem algo de glauco e de doirado como se nele morasse uma mulher de olhos verdes e cabelos loiros, leves e compridos, de um loiro brilhante e sombrio, e cujo perfume é o perfume do sândalo. A beleza da sua testa é grave como a beleza da arquitrave de um templo. Nos seus pulmões há um quebrar de caule. Nas suas mãos, através da finura da pele e do azul das veias, o pensamento emerge. Nesse quarto se vê a pausa em que o instante, de súbito, surpreende e fita e enfrenta a eternidade. E ali se vê o brilho vivo que navega no interior da sombra. Ali se ouve a linguagem que, como nenúfar, aflora à tona das águas paradas do silêncio. Porque o quarto sussurra como se fosse o interior de uma tília onde palpitam miríades de folhas verdes cujo reverso é branco e que batem como pálpebras, ora revelando ora escondendo o interminável brilho dos olhos magnéticos, verdes, cinzentos, azuis e desmesurados como mares. Ali o ar, em frente dos espelhos, oscila e parece arder como se mãos, macias como pétalas de magnólia, alisassem e torcessem longas madeixas de cabelo denso como searas e leve como o fogo." ...

Excerto do conto "A Casa do Mar"
de Sophia de Mello Breyner Andresen

1 comentário:

  1. Apesar das ruínas e da morte,
    Onde sempre acabou cada ilusão,
    A força dos meus sonhos é tão forte,
    Que de tudo renasce a exaltação
    E nunca as minhas mãos ficam vazias.
    .

    [Sophia de Mello Breyner]


    Adoro os escritos da Sophia...abraços


    Hugo

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